Os tempos que correm são de crise financeiro-econômica mundial, e a indústria automotiva não está blindada contra seus efeitos. Nos mercados mais maduros, o consumidor já vem dando mostras claras de que os dias dos carros gigantes e desperdiçadores de combustível estão contados. Isso não inclui, obviamente, o Brasil, onde ter SUV está virando uma espécie de obrigação para parte da classe média emergente. Mas inclui, sim, boa porção da Europa e, aos poucos, meio a contragosto, os Estados Unidos.
Existe um abismo entre o que se discute aqui em Paris e o que se passa no Brasil quando o assunto é carro. Enquanto algumas filiais verde-amarelas das montadoras estão preocupadas em importar para nosso país modelos de grande porte, que custam de R$ 80 mil para cima e que só rodam com gasolina, por aqui o diesel (mais "limpo" e mais econômico) é o combustível predominante, e chique mesmo é comprar carros de pequena cilindrada -- motores 1.0 e 1.2 são muito comuns -- e com baixas emissões de poluentes.
Renault Ondelios, carro-conceito de emissão zero: consumidor não vai esperar por eleVeteranas fabricantes de carros de dimensões menores, Renault, Peugeot e Citroën conseguem se adaptar melhor às demandas industriais e tecnológicas atuais e futuras, ao lados das japonesas Toyota, Honda e Nissan -- as quais, devido à geografia de seu país de origem, que espreme cerca de 130 milhões de pessoas em um arquipélago montanhoso, estão anos à frente na pesquisa por soluções de mobilidade em pouco espaço e que não poluam demais. Já as norte-americanas General Motors, Ford e Chrysler escorregam no rastro de óleo deixado pelas picapes e utilitários esportivos que, nos EUA, garantiam suas margens de lucros, mas que agora viraram mico. Quem sabe o semielétrico Chevrolet Volt (que deve estar nas ruas em 2010) ajude a salvar a primeira...
"Ao diabo a velocidade e o desempenho! Viva a ecologia, o design e a segurança!" Começa assim o texto principal do suplemento do jornal "Libération" (de esquerda) sobre o Salão de Paris -- e, conseqüentemente, sobre a crise na indústria automotiva e as buscas de tecnologias "verdes" para o futuro dos carros. O slogan ecoa na realidade. Nos pavilhões do evento, passar diante de estandes de marcas voltadas para milionários, como Bentley e Rolls-Royce, assemelha-se a visitar um parque que fica mais jurássico a cada minuto (não em termos de tecnologia, entenda-se). Mesmo as grifes da performance, como Ferrari e Lamborghini (que em alguma medida até tentam oferecer perspectivas "verdes") tendem a se tornar anacronismos. Não adianta o fã tradicional de carros reclamar. Isso é fato. Basta esperar alguns anos.
AS OPÇÕES DE ENERGIAA maior parte dos executivos europeus das montadoras globais concorda que o carro híbrido é a resposta mais à mão para a crise energética e ambiental. Conjugando propulsor elétrico (que dá a partida e traciona o carro por um certo número de quilômetros) e a combustão (que entra em ação para recarregar o motor elétrico), esse tipo de carro reduz o consumo de combustível, em média, em 25%. Veículos totalmente elétricos estão em teste ou em fase avançada de desenvolvimento, e podem ganhar as ruas em grande variedade entre 2009 e 2012 -- a promessa de data varia de acordo com cada marca. No entanto, trata-se de uma tecnologia cara. Uma bateria adequada para mover um carro por algumas centenas de quilômetros a cada carga pode custar 15 mil euros, cerca de cinco vezes o valor de um motor comum.
Fotos: Cláudio de Souza/UOL
 Carros de pequeno porte e baixa cilindrada, como o Citroën C1, já respondem por quase a metade das vendas no mercado automotivo francês |
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Sem esperar que os conceitos elétricos e de emissão zero -- mostrados aqui em Paris por quase todas as grandes montadoras -- virem realidade, o consumidor, como dissemos, começa a tomar as rédeas de uma revolução no modo de pensar e interagir com os carros. Se no Brasil eles ainda são acessórios que as pessoas usam para construir sua imagem social, na França o que interessa é ir daqui para lá do modo mais prático, racional, barato e menos agressivo para o meio ambiente -- e só para onde o metrô não vai...
Os números são avassaladores: para um mercado em alta de 5,2% até maio, os carros econômicos (Citroën C1, Peugeot 107, Fiat 500 etc.) viram suas vendas crescerem 64,9%. Na Opel, marca européia da GM, os modelos médios perdem espaço para compactos como Corsa e Agila. Na Ford, mesmo o Fiesta que em breve vai sair de linha experimentou um salto de 30% nos emplacamentos.
O governo, que na França mesmo quando é de direita -- como o atual, de Nicolas Sarkozy -- costuma intervir na economia como se fora de esquerda, fez a sua parte. Criou um sistema chamado "bonus-malus", em vigor desde janeiro, que taxa a compra de veículos que emitem mais de 160 gramas de dióxido de carbono (CO2) por quilômetro rodado, numa faixa que vai de 200 a 2.600 euros. Já os carros que emitem de 130 g/km de CO2 para baixo têm desconto de 200 a 1.000 euros.
EFEITO IMEDIATOO resultado já se fez sentir nas vendas deste ano. Os carros com emissões abaixo de 130 g/km já detêm 46% das vendas totais na França, ante 30% no final de 2007, quando o sistema bonus-malus ainda não havia sido implementado. De acordo com o jornal "Les Echos", as mudanças também acontecem dentro das gamas de cada marca e modelo. O Opel Corsa, por exemplo, viu sua opção de motor menor, de 1,3 litro, passar de 50% para 75% do mix de vendas. E também forçam a criação de novas versões. A Volkswagen, diz o jornal, percebeu que uma parte dos clientes quer um veículo com cara de 4x4, mas que não o seja -- justamente para poderem dizer que ele
não é um 4x4 (apesar de parecer um), e que portanto é menos gastador... Por causa disso, o bem-sucedido SUV Tiguan, da Volks, vai ganhar uma versão com tração simples, o que inclusive fará seu "malus" baixar de 700 euros para 200 euros.
O presidente da Porsche na França, Felix Bräutigam, fez uma afirmação interessante ao jornal "Metro". Segundo ele, "dentro de dez a 20 anos será necessário escolher entre os biocombustíveis, [a pilha de] hidrogênio e a eletricidade" para fornecer energia e mover os carros. "Trata-se de uma escolha política. Nós, fabricantes, podemos oferecer as soluções técnicas. Mas, repito, é uma escolha política: se ela for pelos biocombustíveis, mas se estes causarem um problema para a alimentação humana, nada será resolvido", acrescentou.
Como visto, aqui na França alguns passos já foram dados antes mesmo de essa escolha ter de ser feita. E foram dados pelos fabricantes, pelo governo, pelos consumidores. Que mercados emergentes como o nosso aprendam com isso.