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VW Fox Bluemotion usa 3-cilindros para cravar 20 km/l de gasolina

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP)

De fato, o Brasil está mudando. E não falamos aqui sobre a consciência política (desperta ou não) da população, mas dos primeiros efeitos do regime automotivo nacional (Inovar-Auto) que determina, entre outros pontos ainda nebulosos, que carros feitos e vendidos no país deverão ser mais eficientes até 2017: poluir em menor escala e consumir menos combustível.

Usar injeção direta ou sobrealimentação por turbo para compensar a menor capacidade de motores e ampliar os ganhos é algo consagrado: o motor 1.4 turbo usado pelo Audi A1 (compacto que pode ter preços batendo nos R$ 100 mil) é capaz de fazer quase 20 km/l de gasolina. Na Europa, a nova geração do Golf tem uma de sua opções, com motor a diesel, prometendo rodar mais de 30 km para cada litro de combustível gasto. Mas falar de carros no Brasil implica abordar modelos compactos, com menor grau de requinte. Um dia chegaremos lá, mas a busca por maior eficiência tem de ser simplificada, sem perder o objetivo: o downsizing popular tira o tradicional 4-cilindros em linha, para entrada em cena do 3-cilindros. Bloco de alumínio, componentes plásticos e comandos variáveis ajudam a ser menor, mais leve e menos ruidoso.

Há também a determinante lei do mercado e de sua engrenagem maior: a concorrência. Marcas grandes já tinham seus projetos de motores menores em desenvolvimento há algum tempo, mas nenhuma se dispôs a se "indispor" com o público. No Brasil conservador, ser menor ainda é ser menos: o brasileiro compra carro por número e quer potência. No fim, as ousadas coreanas quebraram o ciclo com seus pequenos Kia Picanto (1.0 de 77/80 cavalos com gasolina/etanol, lançado no final de 2011) e Hyundai HB20 (com o mesmo motor nas versões iniciais).

SIM, É O MOTOR DO UP
Porteira aberta, é a vez das gigantes pisarem neste novo território. A primeira é a Volkswagen, que lançou seu motor 1.0 de três cilindros há exatamente um mês. Mas com toda prudência do mundo: na Europa, o menor motor da família EA-211 (essa mesma linha inclui ainda os motores de Audi A1 e Golf citados acima) roda há pelo menos uma temporada no pequenino Up (que UOL Carros já testou). Por aqui, após ensiná-lo a usar também etanol, os alemães acharam melhor colocá-lo num "período de experiência" a bordo de um carro já conhecido pelo público, o altinho Fox. O Up brasileiro vem mais tarde, este ano ainda.

Chamado pela marca de Fox Bluemotion 2014, o Fox 3-cilindros tem detalhes já conhecidos: preço inicial de R$ 32.590 na carroceria de duas portas (mais caro que o Fox 1.0 4-cilindros, que parte de R$ 31.840), potência de 75/82 cv e 9,7/10,4 kgfm de torque para gasolina/etanol -- veja mais detalhes sobre o carro em nosso texto de lançamento. Mas resta a dúvida sobre como ele se comporta.

  • Murilo Góes/UOL

    Grade e rodas aerodinâmicas, avisos no painel e tocada suave ajudam: 20 km/l com gasolina

COMO ANDA O 3-CILINDROS
Primeiro é preciso deixar o preconceito guardado num canto qualquer da garagem -- ou da concessionária -- antes de se acelerar um 1.0 3-cilindros. Não adianta buscar o DKW do tio-avô na memória, lembrar de moto 2-cilindros... nada disso corresponde à realidade e você só vai estar rindo (sozinho) de suas limitações. Também não adianta fingir ter bola de cristal e dizer se o motor será bem sucedido ao longo de sua vida útil, algo que só o tempo dirá e não este teste curto. O certo é que, assim como Picanto e HB20, o Fox Bluemotion tem um motor atual, estável e por isso anda tranquilo, sem pular, nem sacolejar; e sem encher o ambiente de fumaça preta ou coisa semelhante.

Mas como os rivais, é um carro para pessoas com pouca demanda por espaço, maior disposição em economizar e menos vontade de pisar fundo. Suavidade de estilo se estende ao ruído percebido, menor até do que a bordo do HB20 e, principalmente, do Picanto. O que demonstra um melhor trabalho da Volkswagen no isolamento do habitáculo de motor e da cabine do Fox.

Claro, tudo depende da forma de condução. O Fox Bluemotion e seu motor menor pressupõem um uso mais tranquilo, dentro do ambiente urbano, com mais trocas de marchas e melhor aproveitamento dos giros do motor. Na estrada, é necessário escolher entre ritmo comedido (com máximas de 90/100 km/h) ou marchas mais baixas e giros mais altos, na casa de 4.000 rpm (e nem assim o ruído incomoda).

  • Murilo Góes/UOL

    Esse motor pequeno -- 3-cilindros -- faz parte da família de motores mais modernos da Volkswagen no país; parece pouco do ponto de vista planetário, mas já é um começo

Como a troca de marchas tem papel fundamental no desempenho deste tipo de carro, é de se elogiar o uso do já conhecido câmbio da Volks, com seus engates precisos, vantagem inegável sobre a concorrência. Mas a mão da empresa alemã também pesa no restante da cabine e você verá o mesmo visual engessado de sempre -- só a cor do tecido dos bancos muda (para combinar com o "movimento azul" do nome). 

Há também a chatice já anacrônica dos pacotes de itens opcionais. Você quer um carro bacana, mas acaba tendo de lidar com um quebra-cabeças. Vamos tentar? Quatro portas, luzes de neblina, máscara negra nos faróis, retrovisores e vidros elétricos, sistema de som bacana e sensor de ré para evitar aquelas batidinhas chatas nas vagas diminutas. Felizmente (por força da lei) airbag duplo frontal e freios com ABS são itens de série, garantindo pelo menos a segurança, já que todos os outros componentes citados são pagos por fora em diferentes kits. Para encurtar a história, o Fox Bluemontion azul Boreal testado por UOL Carros e que participa das fotos desta reportagem custaria 32% mais caro que o modelo básico: R$ 43.013.

Nesta farra de cifrões, entra até um item que deveria ser padrão da série "eco-certa" da Volks, como já dissemos no teste do Gol Bluemotion: o computador de bordo com sistema I-Trend Bluemotion (R$ 1.883 junto com som, itens de estilo e volante multifuncional) dá dicas no painel para que o motorista dirija com mais eficiência.

QUANTO FAZ
Seguindo todas, e com gasolina no tanque (combustível cedido pela marca para o teste), conseguimos encerrar a semana (cerca de 300 km) com a melhor média de consumo na casa dos 20 km/l. A média é bem melhor àquela indicada pela própria Volks em seus números oficiais (repassados ao Inmetro), mostrando que dosar o pé (sem cortar no uso de ar condicionado e outros mimos, por exemplo) é a saída.

Também superou nossa marca com o Gol Bluemotion (13 km/l na cidade, 18,5 km/l na estrada com seu motor "comum"). E, comparando com o HB20 1.0 também foi melhor: nossa abordagem mais favorável com o modelo da Hyundai nos levou um pouco além dos 12 km/l de gasolina.

Mas usamos o termo "melhor" aqui por não ter sido a única média encontrada. É que o computador de bordo do Fox zera o cálculo a cada partida. Falha menor de um projeto que ainda vai fazer mudar gente rever conceitos.   

 

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