Carro automático começa a virar regra no Brasil

Renata Turbiani
Colaboração para o UOL

Antes considerado sinônimo de problema devido aos altos custos de reparação, à dificuldade de encontrar profissionais especializados na hora do conserto e ao excessivo consumo de combustível, o câmbio automático -- aquele em que o motorista não precisa fazer as trocas das marchas -- aos poucos tem conquistado o consumidor brasileiro, e por várias razões. A principal delas é a busca por conforto, especialmente nas grandes cidades, onde os congestionamentos atingem índices cada vez maiores, tornando a operação de trocar marchas manualmente mais frequente e cansativa.

  • Thereza Saraiva, 73 anos, cansou de trocar marchas: "Agora é só automático"

A segunda razão é que esse tipo de transmissão deixou de ser exclusividade de modelos e versões mais luxuosos. As montadoras passaram inclusive a oferecer uma alternativa acessível para grande parte dos consumidores: os câmbios automatizados. Enquanto o automático tradicional (com conversor de torque) eleva o preço do carro entre R$ 3 mil e R$ 5 mil, o automatizado encarece cerca de R$ 2 mil. Assim, carros mais populares agora também dispensam o pedal da embreagem: é o caso de Volkswagen Gol, Fiat Palio, Chevrolet Agile etc.

Por fim, antigos problemas deixaram de existir. "O conserto ficou mais barato, a mão-de-obra se especializou e até o consumo de combustível diminuiu", afirma Francisco Satkunas, engenheiro e diretor-conselheiro da Sociedade de Engenharia da Mobilidade (SAE) Brasil.

SUCESSO NAS GRANDES MARCAS

Líder de vendas no país em 2012, a Fiat oferece dez modelos sem pedal da embreagem, oito deles com o câmbio automatizado Dualogic Plus. No Palio, a participação nas vendas chega a 40% na versão Essence e 30% na Sporting. Nas linhas Grand Siena, Palio Adventure, Idea e Linea, chega a 40%; no Punto são 30% na versão Essence e 45% na Sporting; o hatch médio Bravo tem 45% de vendas com Dualogic na Essence e 45% e 50% na Sporting. Na picapinha Strada Adventure, a participação chega a 25%; e no Cinquecento, 60% (divididos em 45% com Dualogic e 15% com automático tradicional). O quadro se completa com o Freemont, feito em parceria com a Chrysler e equipado a partir deste mês com câmbio automático de seis marchas.
Na gama da Ford, os carros automáticos e com tecnologia Powershift (um automatizado de dupla embreagem, que a marca insiste em chamar de automático) respondem por 21% do total comercializado. Os números: picape Ranger e Focus hatch, 25% cada; Focus sedã, 60%; e EcoSport equipado com Powershift; 22%. Os números referentes ao New Fiesta ainda não foram fechados.
A Renault, sexta marca mais vendida no Brasil, oferece quatro modelos automáticos. No sedã médio Fluence, 68% das unidades vendidas são com transmissão automática; no SUV compacto Duster, 30%; no Sandero (incluindo a versão aventureira Stepway), 12%. A menor participação é no mix sedã Logan, de apenas 5%.

De acordo com cálculos da General Motors, há dez anos as transmissões automáticas representavam apenas 2% do mercado interno de automóveis e utilitários leves. Em 2011, pularam para 10% e, este ano, deverão chegar a 12%. Especificamente na Chevrolet, marca da GM no Brasil, carros automáticos e com o automatizado Easytronic já respondem por 20% das vendas.

O que tem o maior índice de automatização é o médio Cruze (90% das vendas do modelo), seguido por Sonic (85%), Spin (60%), Cobalt e S10 (ambos com 40%) e Agile (11%). Apesar de a empresa não confirmar, Onix e Prisma também devem ganhar câmbio automático nos próximos meses. Apenas o Agile usa o Easytronic. Os demais têm (ou terão) câmbio automático de seis marchas. (Leia sobre outras marcas em quadro nesta página.)

CHEGA DE MUQUE
Quem compra um carro automático está em busca de conforto e comodidade. Henrique Sampaio, gerente de marketing de produto da Volkswagen, diz que o consumidor desse tipo de carro tem entre 35 e 75 anos, mora ou trabalha nas grandes cidades e não costuma fazer uso do automóvel no fora-de-estrada.

"São pessoas que não abrem mão das facilidades e da tecnologia, e nessa área não há muita variação entre homens e os mulheres, que buscam as mesmas coisas", analisa o executivo da Volks (a montadora declinou de divulgar números de vendas).

A aposentada Thereza Saraiva, 73 anos, se encaixa perfeitamente no perfil descrito por Sampaio. "A vida toda achei desconfortável trocar as marchas e pisar na embreagem. Depois de uma viagem, então, saia do carro muito cansada", conta ela.

Proprietária de um Peugeot 207 1.6 2011, ela conta que sempre quis um veículo automático, mas só encontrava à venda os muito luxuosos e caros. A primeira aquisição aconteceu apenas em 2008. "Naquela época, o único que cabia no meu bolso era o Chevrolet Astra, e foi o que comprei. De lá para cá vieram outros modelos, de outras marcas, mas a regra é ser automático", afirma.

Apesar do aumento nas vendas de carros com transmissões automática e automatizada, o câmbio manual (também chamado de mecânico) não vai desaparecer (mas terá oferta reduzida), e o carro dotado dele não sofrerá depreciação especialmente maior na hora de revender.

QUANTO CUSTA RELAXAR

  • Murilo Góes/UOL

    Câmbio Powershift no Ford New Fiesta SE: R$ 3.500

  • Murilo Góes/UOL

    Câmbio automático no Renault Sandero Privilège: R$ 3.900

  • Cata Z Notícias

    Câmbio Dualogic Plus no Fiat Punto Essence: R$ 2.333

"Normalmente, a desvalorização de um veículo zero-quilômetro manual [assim que sai da revenda] é de 8%, mas pode variar entre 6% e 15%. No caso do automático, também fica na casa dos 8%, e do automatizado pode chegar ao dobro", afirma Vitor Meizikas Filho, diretor executivo da Molicar, empresa especializada em pesquisa de preços e tendências para o mercado automotivo.

Segundo o profissional, os automóveis mecânicos, na grande maioria dos negócios, valem menos do que os automáticos, mas não do que os automatizados. "A compra de um automático é sempre bem-vinda, principalmente se ele oferecer mais de cinco marchas. O automatizado, por sua vez, não é tão benquisto no mercado, porque ainda é um sistema falho, um produto mal-resolvido. Quase sempre, um modelo mecânico do mesmo ano é vendido com mais facilidade e por um valor melhor", explica Meizikas.

MANUAL VAI RESISTIR
De acordo com Stephan Keese, sócio-diretor da consultoria Roland Berger e especialista no setor automotivo, a maior procura pelos automáticos está provocando mudanças no mercado nacional -- algumas delas ruins para os donos de carros manuais.

Ele comenta que as configurações dos segmentos estão se transformando. "No de luxo, por exemplo, quase 100% dos veículos já possuem apenas transmissão automática. No semiluxo, com preço entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, em breve essa porcentagem deverá ser de 75%, e nas demais categorias, entre 20% e 30%. Sendo assim, na linha dos populares, os consumidores não terão problemas para vender seus carros manuais, mas os donos de veículos de classes superiores não terão a mesma sorte", afirma.

Mas os fãs do câmbio mecânico não precisam se preocupar: especialistas garantem que ele não irá desaparecer, pelo menos não por enquanto. Luiz Carlos Mello, diretor do Centro de Estudos Automotivos (CEA), diz que essa é uma hipótese remota. "Sempre haverá espaço para a transmissão mecânica; o que deve acontecer, num futuro próximo, é a automática virar algo normal, se tornando ainda mais barata e deixando de ser um item opcional", diz.

Ao saber disso, o editor de vídeos Bruno Castillero, 28 anos, comemorou. Proprietário de um Honda Civic 1.8 manual, ano 2008, ele é fã de uma condução mais esportiva, na qual o câmbio manual permite maior controle sobre o desempenho do carro.

"Tenho preferência pelo câmbio manual puramente por prazer. Não me importo em passar o dia inteiro dirigindo, mesmo em viagens longas, e como não uso o carro no dia-a-dia no trânsito da capital, para mim essa ainda continua sendo a primeira opção", encerra Castillo.

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