Hyundai HB20 automático subestima rivais e tropeça

Eugênio Augusto Brito
Do UOL, em São Paulo (SP)

Deixou de ser novidade: basta observar ruas e avenidas para saber que a Hyundai acertou na mosca com seu HB20. Sua combinação de projeto atual, visual arrojado e inovador, boa dose de segurança e itens de conforto e/ou tecnologia agitou o segmento dos compactos, até então conservador e de certa forma preguiçoso (mesmo sendo este o mais movimentado do país).

Enquanto se multiplica na vida real, o hatchback tem destroçado a ordem do topo da lista de carros mais vendidos, assustando os rivais, e o recém-lançado sedã segue pelo mesmo caminho com uma dose extra de requinte (releia nossa avaliação). Mesmo assim, os sul-coreanos parecem ainda derrapar na soberba.

Provamos nosso ponto de vista apontando o dedo para o aventureiro HB20X. Ou pelo menos tentando, já que é difícil avistar um na rua -- caro demais para o que oferece, fica difícil justificar sua existência frente a rivais mais maduros. Já no caso do HB20 automático, que UOL Carros avalia nesta reportagem, a questão parece ter sido o excesso de confiança minando a ousadia.

COMO É O HB20 A/T
Parece que a Hyundai "jogou com o regulamento debaixo do braço", como se diz popularmente, e fez o mínimo possível para se destacar de Gol, Uno e outros rivais posicionados no topo de ranking de vendas. Como sempre, configurou bem seu carro, deixando-o com o preço ligeiramente acima de versões semelhantes da concorrência, mas contando com os fatores "novidade" e "modismo" (sai bem na foto dizer que tem um Hyundai, é ou não é?).

Esta configuração A/T está no topo da variante do hatch equipada com o motor Gamma, 4-cilindros de 1,6 litro. Os bons predicados são conhecidos: temos potência de sobra para o baixo peso do dois-volumes com os 128 cavalos com 16,5 kgfm de torque com etanol no tanque -- de fato, este motor é forte o bastante para que equipar até o irmão maior i30.

Em termos de conteúdo, a lista é completa tanto em segurança, quanto conforto já da versão inicial, a Style: rodas aro 14, freios com ABS (antitravamento) e EBD (distribuição de força da frenagem), airbags frontais, cintos com pré-tensionador, acendimento automático dos faróis, alarme, ar-condicionado com sistema ionizador, sistema de som (rádio 2 DIN com função MP3, conexões USB/iPod (com cabo extra) e auxiliar, comandos de áudio no volante, 4 alto-falantes e antena de teto), computador de bordo, aviso de abertura de porta, direção hidráulica, faróis de neblina, fixação Isofix para cadeirinhas, retrovisores com ajuste elétrico, sensor de estacionamento traseiro, vidros elétricos, comandos de abertura e fechamento na chave-canivete e volante com regulagem de altura e profundidade. O preço é de R$ 47.595.

O DE SEMPRE

  • Murilo Góes/UOL

    HB20 A/T vai bem, como já é praxe, em visual, conveniência e conforto: um rei na cidade

Estranhamente, o mesmo valor permite levar, segundo o configurador site da marca, a versão imediatamente superior, a Comfort Style, que acrescenta mimos como sistema one touch simples (descida automática, com um toque, do vidro do motorista), porta-óculos, conexão Bluetooth para celular, entre outros. O mesmo vale para os pacotes que surgem logo acima, Premium (R$ 50.095 para complemento nos falantes, rodas aro 15 e couro nos volante, entre outros acréscimos) e Premium Audio Hyundai BTH (este mesmo valor com o complemento do Bluetooth). Quem compraria, portanto, o carro com menos itens? Talvez alguém que precise de entrega menos demorada que os atuais três meses de espera (quase beirando os 120 dias em alguns casos relatados por amigos e leitores).

AÇÃO
Falando do câmbio automático de quatro marchas, a novidade em si da versão, há pouco o que se reclamar, ainda que isso ocorra num ponto crucial. Vamos por partes: o carro entrega, sim, conforto e desempenho que boa parte dos consumidores do segmento não tinha até então. O HB20 automático desliza suave pelo asfalto da cidade, com seu condutor tranquilo: não há trancos, as trocas são feitas no tempo correto, algo raramente visto em carros equipados com este tipo de equipamento.

Basta lembrar do rendimento sofrível das caixas de quatro marchas de carros franceses (falamos, claro, do Sandero, mas também dos novos Citroën C3 e Peugeot 208) e até mesmo do sempre bem cotado Toyota Corolla (que citamos aqui apenas por ser um paradigma em conforto e líder do segmento de carros médios, mesmo pisando na bola neste quesito). Ou das "cabeçadas" intermináveis a que donos de modelos populares automatizados estão sujeitos (Gol, Palio e cia). Neste ponto, os coreanos chegaram depois e fizeram melhor.

Acontece que a Hyundai podia fazer ainda melhor e colocar, pelo menos, mais uma marcha nesta relação. Mas como não precisava, não o fez. Rei na cidade, o HB20 A/T perde seu charme na estrada. Trafegando até a velocidade de 100 km/h, tudo bem: o motor vai rodar abaixo dos 2.000 giros, o silêncio na cabine será primoroso e o consumo, aceitável. Se o motorista definir a velocidade de cruzeiro em torno do limite de 120 km/h, porém, pode ter alguma dor de cabeça, ainda que moderada, já que os giros vão subir para perto das 4.000 rotações, aumentando o ruído a bordo e, claro, a conta no posto de combustível. 

QUASE

  • Murilo Góes/UOL

    Quem pede desempenho, sobretudo na estrada, verá o câmbio de quatro marchas "derrapar"

Já conhecemos a conta: com marchas a menos, o câmbio automático fica indeciso e acaba restringindo o desempenho do motor, que poderia fazer o HB20 voar leve e solto (no caso do carro com câmbio manual). Trabalhando nervoso e "gritando" mais, o consumo é maior.

O Inmetro aponta consumo (laboratorial) de 7,6/8,7 km/l para etanol e 11,6/12,7 km/l para gasolina (cidade/estrada) para o modelo 1.6 manual. Não há dados para o automático, mas estes números nos servem de baliza ainda assim: nosso teste com por mais de 930 quilômetros nos deu médias sempre inferiores, com 6,4/8,8 km/l com etanol e 9,5/11,4 km/l com gasolina (novamente para a ordem cidade/estrada).

Uma quinta marcha bastaria, ainda que exemplos atuais de engenharia mostrem que a sexta já é fundamental.

ESQUECERAM DE MIM
Qualquer leitor atento percebeu que não citamos a GM em momento algum: claro, não pensamos no Agile Easytonic, automatizado que sequer deveria existir, mas há a expectativa pelo momento em que o já anunciado Onix automático (com a boa caixa de seis marchas de Cobalt, Cruze e outros) vai finalmente surgir no mercado.

Mas sem precisar temer um futuro incerto, bastava à Hyundai olhar para o lado e ver o que a Ford planejava simultaneamente. De mansinho, a marca americana nacionalizou o New Fiesta e o lançou há pouco com preço interessante e pacote matador, que inclui bom sistema multimídia, controles eletrônicos de tração, estabilidade e auxílio em aclives -- tecnologia inexistente na linha HB20, ainda que o câmbio automático evite o carro de escorregar para trás em ladeiras. De quebra, dotou a versão topo de seu modelo renovado com o câmbio Powershift, nome fantasia da caixa automatizada de seis marchas e duas embreagens (leia nossas impressões).

Bingo, era o que bastava em termos de desempenho e conforto. Ploft, era a porrada que a Hyundai esperava não tomar.

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