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X60 usa recheio e preço para tentar ressurreição da Lifan; leia impressões

Claudio Luís de Souza/UOL
Lifan X60 em Punta del Este: visual lembra vários modelos, e nome é "inspirado" pelo Volvo XC60 imagem: Claudio Luís de Souza/UOL

Claudio Luís de Souza

Do UOL, em Punta del Este (Uruguai)

A fabricante chinesa Lifan Motors apresentou nesta quarta-feira (15), em Punta del Este, no Uruguai, o utilitário esportivo X60, primeiro modelo da marca montado no país do Mercosul. As 25 concessionárias da marca no Brasil devem receber unidades do X60 ainda este mês. O preço é R$ 52.777, escolhido marqueteiramente para lembrar as três velas náuticas enfunadas no logotipo da Lifan (no preço, de ponta-cabeça).

A estratégia da chinesa é a mesma da conterrânea JAC Motors: oferecer aos brasileiros um carro "completão" por um preço menor que o esperável. O mote para o X60 é "Tudo isso, por isso", sendo o primeiro "isso" uma lista relativamente robusta de equipamentos, e o segundo, o preço. A fabricante chegou a fazer um concurso para que internautas adivinhassem o valor exato.

O lançamento do X60 no Brasil marca um recomeço da Lifan a partir dos escombros de sua incursão inicial no país, em parceria com a Effa Motors. O hatch 320 (clone do Mini Cooper) e o sedã 620 são frutos daquela operação conjunta -- hoje, devidamente esquecidos, a não ser por quem os comprou e teve problemas com eles.

A "nova" Lifan opera uma fábrica de CKD (montagem local de kits importados) em San José, no Uruguai, desde outubro de 2012, obviamente de olho em Brasil e Argentina. As ordens vêm diretamente da matriz na China -- que promete assumir a bronca de prestar assistência aos carros da fase anterior.

Até o final de 2014 a Lifan deve investir cerca de US$ 100 milhões na planta uruguaia, atingindo capacidade produtiva de 40 mil carros por ano, em dois turnos de trabalho. Além do X60, devem ser feitos aqui -- pelo menos -- um sedã médio e uma picape. Erguer uma fábrica no Brasil é uma possibilidade: a Lifan "estuda" os termos do regime automotivo Inovar-Auto.

O CARRO
O X60 vem para brigar diretamente com SUVs urbanos bem estabelecidos no Brasil, como Ford EcoSport, Renault Duster e até mesmo Hyundai Tucson. O conterrâneo Chery Tiggo, primeiro jipinho urbano chinês lançado no Brasil (o X60 é o segundo), também está desafiado. A Lifan sonha emplacar cerca de 400 carros por mês.

Oferecido em versão única, a Talent, o X60 traz sob o capô um motor a gasolina de 1,8 litro, com abertura de válvulas variável, que gera potência de 128 cavalos a 6.000 rpm e torque de 16,8 kgfm a 4.200 rpm. São números modestos, encontráveis em propulsores de 1,6 litro. A tração é dianteira e a transmissão é manual de cinco marchas (a opção automática ficou para o futuro, bem como o sistema flex).

Dos 4,32 metros de comprimento (exatamente o mesmo do Tucson, 1 cm mais que o Duster e 8 cm mais que o Eco), a Lifan extraiu corretos 2,6 metros de entre-eixos. Deu para fazer uma cabine que parece mais espaçosa que a média do mercado -- a altura de 1,69 metro ajuda.

A lista de equipamentos, o "tudo isso" da propaganda, é extensa. Faltam alguns itens básicos, como regulagem de altura do banco do motorista e computador de bordo, e os mais exigentes vão sentir falta de controles eletrônicos de tração e estabilidade (que, obviamente, levariam o X60 muito além dos R$ 52.777). Mas o público-alvo do modelo não vai reclamar.

O SUV sai de fábrica com airbags frontais, freios a disco nas quatro rodas com ABS (antitravamento) e EBD (distribuição de força de frenagem), direção hidráulica, ar-condicionado, retrovisores elétricos, luzes de neblina dianteiras e traseiras, regulagem de altura dos faróis, rodas de alumínio de 16 polegadas, rack de teto, sistema multimídia (DVD, navegação por GPS, CD, rádio AM/FM, entrada USB) com tela touchscreen e comandos no volante, câmera e sensor de ré, revestimento da cabine em couro e abertura interna de porta-malas e tampa do tanque de combustível, entre outros itens.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES
É notável como o X60 se parece com vários carros, mas com nenhum em especial. O truque funciona bem, a começar do nome: XC60 é um SUV da Volvo, marca considerada premium -- mas quantas pessoas vão lembrar disso na hora de julgar o X60? Representantes da Lifan disseram aqui no Uruguai que se trata de coincidência, e que o 60 refere-se ao entre-eixos do jipinho.

Assim, mesmo que se perceba um ar de Hyundai Santa Fe na dianteira e de Tucson quando se olha de perfil, e que de certos ângulos haja um quê de modelos Chevrolet (Captiva, Trax, Equinox), fica difícil bater o martelo e acusar: o X60 copiou o carro tal. Tachar o 320 de clone do Mini Cooper era moleza, mas neste caso a Lifan acabou saindo por cima.

  • Claudio Luís de Souza/UOL

    Rodas de 16 polegadas, rack de teto e aplique no parachoques dão corpo ao X60

  • Divulgação

    Interior oferecido inicialmente mistura preto e bege; esta cor se repete no couro dos bancos

Um exame detalhado do X60 revela peças meio toscas (especialmente a grade frontal cromada) e mau gosto generalizado nos detalhes, mas grave mesmo são alguns desníveis na carroceria, especialmente na junção das portas às colunas e aos paralamas.

Na cabine, a alavanca de regulagem de altura do volante bate violentamente na coluna da direção ao ser destravada, e pode machucar os desavisados. Um acabamento plástico em torno da maçaneta se soltou com o simples abrir e fechar de uma das portas; os retrovisores elétricos se movem em falso quando no limite do ajuste; o apoio para o pé esquerdo é absurdamente próximo do pedal da embreagem, atrapalhando a condução; o painel de instrumentos é horrendo e pequeno; etc. etc. etc. É ridículo sequer citar o carro da Lifan na mesma frase que EcoSport, Tucson e até Duster. O nível é outro.

Mas há o que elogiar. O espaço interno do X60 parece o de um SUV maior, na horizontal e na vertical. O conforto para as pernas dos passageiros traseiros, por exemplo, é admirável. Os bancos são firmes na medida certa, proporcionando bom apoio ao corpo e ajudando no combate ao cansaço em viagens mais longas.

O GPS foi útil durante o test-drive em Punta del Este (a ver como se sai no Brasil). O Bluetooth aceitou rapidamente um dos celulares a bordo e reproduziu música deste com qualidade. A câmera de ré e a própria tela sensível ao toque são, como se diz, um "plus a mais" que todo neófito em SUV (ou mesmo em carro não-popular) vai descrever com orgulho para o colega de escritório.

Em movimento, o X60 é exatamente como a maioria dos carros à venda no Brasil, independentemente da origem: banal. O motor 1.8 trabalha a 3.000 rpm a meros 100 km/h, o que deve se traduzir em consumo elevado (o ruído é alto, mas não chega a incomodar). Não medimos o quanto o jipinho bebeu no trajeto porque não há computador de bordo. O câmbio é dócil nos engates; chato mesmo é o pedal da embreagem quase raspando no apoio de pé, como já dissemos.

Desprovido de controles eletrônicos de segurança, o X60 não inspira segurança nas curvas (claro que sua proposta não é apostar corrida nem "fazer curva"). A suspensão é dura, mas as rodas não são exageradas (16 polegadas) e o perfil dos pneus é alto -- na média, dá para não sofrer com a bateção em asfalto ruim. Como a tração é apenas dianteira, esqueça as aventuras em pisos off-road.

Importante: o X60 tem garantia total de três anos, com dois anos adicionais para câmbio e motor. A Lifan, que espera chegar a 50 revendas até o final de 2013, contratou uma empresa de assistência veicular que promete socorro e atenção 24 horas em todo o território nacional. Além disso, afirma possuir amplo estoque de peças já guardado no Brasil.

Boa sorte a todos os envolvidos!
 



Viagem a convite da Lifan

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