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Volkswagen Fusca 2013 respeita nostalgia mesmo andando como bom esportivo

Murilo Góes/UOL
Ao fazer curvas no sossego, Fusca 2013 esquece passado do velho Fusca imagem: Murilo Góes/UOL

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP)

Levante o zíper do agasalho esportivo com listras, curve as pernas e entre a bordo do novo Fusca. Você não precisa tirar a chave do bolso para abrir as portas (nem para fechá-las, na saída) ou dar a partida no motor 2.0 turbo de 200 cavalos e injeção direta de gasolina -- e isso já vai impressionar sua companhia, pode ter certeza. Com o botão apertado e o acelerador pressionado, um som o leva de volta ao passado: a eletrônica faz questão de emular aquele borbulhar típico do motor boxer do velho Fusca. A nostalgia para quando o câmbio DSG troca as marchas de forma tão suave, mas rápida, que o carro já está em quarta aos 60 km/h e, quando você se dá conta, o 0-100 foi cumprido e aquele carro de três portas ficou lá para trás, ainda parado no semáforo.

O novo Fusca pegou o nome do antigo numa jogada de marketing que nada tem a ver com a ideia do carro de dinâmica duvidosa, mas barato. O lance não é repetir o preço -- Gol, Fox e o futuro Up têm esta função -- mas usar a sonoridade típica de um nome que todos conhecem (afinal, o velho Fusca tornou-se o modelo de maior sucesso comercial da história do automóvel). Tanto é assim que o novo carro assume o velho nome existente em cada mercado: Beetle nos Estados Unidos, Käfer na Alemanha, Vocho no México e por aí vai. Então pare de vociferar que o novo nada tem a ver com o velho. Ainda bem que não tem. Ou quase não tem.

É OU NÃO
O novo Fusca é um carro mais baixo, mais esportivo e masculino do que o antecessor, New Beetle jamais foi. Segundo a Volks, nenhuma de suas linhas foi utilizada por puro modismo -- algo que sobrou no modelo de 1998, desenhado conforme os preceitos do retro-futurismo, daí o termo "retrô" que marcou modelos daquele período como o Fiat 500, o Mini Cooper e o próprio Beetle. Ainda assim, o corpo do carro, separado das caixas de rodas, remete ao desenho do Fusca original.

A mescla de elementos e cores do painel remete, novamente, ao Fusca original, como o porta-luvas superior e seu mecanismo de abertura. Ou as linhas paralelas e círculos, que se repetem numa organização típica de alemães. E ainda a distância que o motorista tem de abrir o braço para alcançar a alavanca de câmbio -- calma! Nem o manual, nem o DSG têm aquele globo com um caranguejo dentro (ou uma bola de sinuca) no topo da alavanca.

Afinal, a mecânica é de outro patamar. Num dos raros momentos em que fomos forçados a parar de acelerar o carro, num engarrafamento da Marginal Pinheiros, um motorista de Toyota Hilux emparelhou, abaixou o vidro e disparou o sorriso: "É o mesmo motor do Jetta"? A plataforma e os equipamentos são do Jetta topo de linha, o que garante um desempenho bem esportivo, já que o novo Fusca é mais leve e baixo. "Está andando bem?" O 0-100 km/h prometido é de 7,5 segundos. Quando o trânsito andou e deixamos a picape para trás, ficou a certeza de que mais uma unidade do novo Fusca teria destino certo em alguma garagem.

O carro torce pescoços facilmente, mas torce melhor ainda as curvas da estrada, algo que o antigo Fusca nunca sonhou em fazer com sua solidez de folha de papel. Abra a porta do modelo 2013 e repare: abaixo dos estribos há uma fenda. É nela que se encaixa a trava existente na base de cada porta, aumentando ainda mais a rigidez do conjunto. O volante com assistência elétrica fica na medida, por mais que a curva surja veloz no para-brisa e o controle XDS ajuda a fazer o contorno da forma correta.

 

Quem ficou de fora corre para se aproximar e dar uma espiadinha. "É o novo New Beetle"? Basta convidar para conhecer o interior para a névoa mental se dissipar. A sensação de direção é muito mais esportiva, com melhor visibilidade e maior proximidade dos equipamentos. O carro é tipicamente um médio, mas ainda assim parece vestir o motorista. Ainda assim, os sensores de estacionamento de série são bem-vindos, uma vez que a dianteira com sua ponta chapada e a traseira alta e massuda ficam "invisíveis".

UM PAI PARA ÓRFÃOS DO GTi
Um dos grandes lances dos velhos Fuscas atualmente esta na customização. Traduzindo: esqueça aquela noção do Fusca econômico usado para levar a família. Os "moleques" querem botar a maior roda, o som mais forte e o motor mais abusado possível na casca do velho besouro. Aliás, nem a antiga "Fusqueta" serve mais: olhe para a faixa do lado no trânsito e perceba como cresceu a quantidade de Chevrolet Cruze Sport6 (o hatch) e de Hyundai Elantra e Sonata usados para tuning. É este espaço que a Volkswagen está sedenta para ocupar com o novo Fusca.

O carro, que chega ao Brasil num pacote equivalente ao Sport vendido lá fora, já traz rodas de 18 polegadas, estribo, spoiler bicolor gigante e, por dentro, marcadores sobre o painel e LEDs que mudam a cor da borda dos alto-falantes. Mas tudo poderia ser melhor: a Volks "esqueceu" de trazer as rodas mais vistosas, que lembram aquelas utilizadas pelo modelo clássico -- Heritage (aro 17), Disco (aro 18) e Tornado (aro 19). O próprio diretor de marketing, o alemão Axel Schröder, confessou preferir o uso dos modelos de 19 polegadas. Tudo bem, tudo bem, nosso asfalto é mais cruel que o piso gringo.
 
Mas o que dizer da ausência da pintura "sunburst" no painel -- a mesma utilizada nas guitarras Fender Stratocaster -- para quem leva o caro pacote de som da Fender? Doeu tanto quanto uma nota desafinada.
 
Ainda assim, o supervisor de design Guilherme Knop aponta: "Há o estribo, que é um elemento formal e de decoração, diferente da utilidade do primeiro Fusca, mas que pode ter a cor alterada. Há essa pegada de comportar uma roda maior, o spoiler em dois tons, o teto solar elétrico, que é escurecido, num contraste com a carroceria, que tem as cores clássicas do velho Fusca".

Cromados, insertos em fibra de carbono, volante de base chata, relógios sobre o painel, partida por botão e a alavanca do câmbio DSG complementam pacote com o devido toque de esportividade.
 
O novo Fusca pode até atrair a turma que ficava louca com o Golf GTI, mas que viu o carro morrer sem deixar herdeiros no Brasil. Imagine um Fusca manual, seis marchas, com seus 200 cavalos e controles que dosam o giro das rodas em curvas? Imagine o quanto ele pode ser instigado nas mãos dos fuçadores e personalizadores. Fica a dica!

O fato é que o novo Fusca foi um dos carros mais divertidos e interessantes a passar por nossa garagem este ano. Deu conta com louvor do "estilo de fim-de-semana", do carro feito para aparecer, mostrou vigor para encarar a pressão de ser um modelo com pegada esportiva (de fato) e mesmo com o espaço esguio em relação a veículos maiores (tem 4,27 m de comprimento, entre-eixos de 2,53 m e porta-malas de 310 litros), agradou até mesmo em momentos do dia-a-dia, com saídas e retomadas ligeiras (nada de lag de turbo para atrapalhar a vida) e consumo de 8,6 km/l na cidade e quase 11 km/l na estrada, sempre considerando arrancadas para testes e ar condicionado bem gelado para aguentar o calor da rua, afinal, se for para passar calor é melhor ficar com o Fusca antigo.

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