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Ar-condicionado no carro passa de ladrão de potência a item de segurança

Fernando Calmon

Colunista do UOL

Como exemplo de país tropical e por suas dimensões continentais, o Brasil deveria ter-se tornado o paraíso para os fabricantes de ar-condicionado para automóveis. Ocorre que problemas técnicos, de custo dos aparelhos e de baixo poder aquisitivo dos compradores, levaram a uma taxa de aplicação relativamente baixa durante muitos anos.

Para as concessionárias também não era producente ter muitos modelos estocados à espera de compradores interessados nesse equipamento. E tudo conspirava contra. Há uns 20 anos o sistema drenava parte relativamente elevada da potência do motor (10% ou até mais). Por consequência, o desempenho caía e o consumo de combustível aumentava, em alguns casos de forma expressiva, ao rodar no para-e-anda do trânsito urbano. Isso quando não fazia subir a temperatura do motor ou sobrecarregava a bateria.

Para complicar, em 1993 surgiu o carro popular. O primeiro foi o Fusca renascido, mas os demais optaram pelo motor de 1.000 cm³ (1 litro) de cilindrada já instalado nas versões de entrada, desde que o IPI teve sua alíquota nominal reduzida quase à metade em 1990. As potências eram baixas e tentar instalar ar-condicionado nem pensar. Automóveis de baixa cilindrada e de menor preço tomaram conta do mercado: em 2001 representavam incríveis 71% das vendas de automóveis e peruas.

Aos poucos, porém, os motores de 1 litro evoluíram e todo o conjunto de ar-condicionado, ainda mais. Os componentes diminuíram de peso e volume, além dos compressores ficarem mais leves e eficientes. Já era possível instalar o aparelho mesmo em carros de baixa cilindrada, desde que o motorista aceitasse uma perda mais ou menos tolerável de desempenho.

O que ajudou também foi o início do gerenciamento eletrônico dos motores. Antes disso, ainda no tempo dos carburadores, já era possível desligar o compressor, quando se pisava até o fim do curso do acelerador, bastante útil numa manobra de ultrapassagem. Hoje, sistemas de ar-condicionado, além de confiáveis e de baixo custo de manutenção, subtraem em torno de 5% da potência de um motor de 1,6 l e 100 cv ou 10% no caso de propulsor de 1 litro e 70 cv. O consumo de combustível aumenta cerca de 10%, em cidade, e 6%, em estrada, graças aos novos compressores de deslocamento variável.

CALOR É RISCO
Temperatura amena no habitáculo melhora a chamada segurança preventiva, ou seja, recursos de conforto que oferecem ao motorista condições ideais de conduzir o veículo. O corpo humano se sente bem em ambientes a 22° C e umidade relativa do ar de 50%: aumentam a concentração ao dirigir e a capacidade de reação.

Estudos recentes, divulgados pela Mahle, indicam que já a 27°C a pulsação e a temperatura corporal sobem, levando ao cansaço e até à agressividade. Elevação de mais 10°C significa risco de acidente 20% maior. O motorista se sente, sob essa condição climática, da mesma forma que se tivesse nível alcoólico no sangue de 0,5 g/l. Esse é, praticamente, o limite de 0,6 g/l da Lei Seca, quando o motorista poderá ser preso em flagrante, receber multa de R$ 1.915,40 e pena entre seis meses e dois anos de reclusão.

Portanto, investir cerca de R$ 3.000 num sistema de ar-condicionado, quando opcional de fábrica, vale a pena pelo conforto e também segurança preventiva. Atualmente, no Brasil, mais de 50% dos automóveis são vendidos com esse equipamento e pode chegar a 70% nos próximos anos.

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