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Saveiro Cross oferece imagem de aventura e comportamento urbano

Claudio de Souza

Do UOL, em Campinas (SP)

Deve haver algum significado especial no fato de os dois primeiros lançamentos da Volkswagen em 2010 terem sido de picapes: a média (e inédita) Amarok e, semanas depois, a versão Cross da compacta Saveiro, cujo modelo-base foi renovado no ano passado. Aparentemente, a marca alemã cansou de apanhar da rival Fiat entre as picapes pequenas, segmento em que a italiana reina com a Strada e suas várias configurações; e resolveu -- finalmente -- chutar a porta do andar de cima e invadir a festa de Chevrolet S10, Ford Ranger, Toyota Hilux e outras.

  • Murilo Góes/UOL

    Decorada com relativa discrição, Saveiro Cross encara a Fiat Strada Adventure

Na verdade, o significado é esse mesmo: a briga com a Fiat pela liderança do mercado automotivo nacional é encarniçada, e para chegar ao topo é preciso ter muitos produtos para oferecer. É o que faz a atual líder, que não deixa passar 15 dias sem anunciar alguma novidade (qualquer novidade) em sua gama de modelos. A fantasia off-road light aplicada à renovada picapinha derivada do Gol é, claramente, uma ação para conquistar consumidores que até agora só tinham a Strada Adventure como opção. Já a Amarok evita a derrota por WO entre as picapes médias, jogo a que a Fiat assiste da arquibancada enquanto decide como usar a Chrysler.

A lógica Cross da Volks é análoga à lógica Adventure da Fiat: pegue um carro convencional e muna-o de adereços típicos de um fora-de-estrada, mas deixe carroceria e mecânica como estão -- no máximo, mexa na altura da suspensão e dos pneus. Tração nas quatro rodas e reduzida, nem pensar. Reconheça-se que a marca italiana (que, aliás, foi a pioneira nessa moda) oferece bloqueio do diferencial (ELD) em suas versões Locker, além de charminhos como inclinômetros e bússola no painel. Mas nem por isso a vocação é verdadeiramente lameira. O que vale é a imagem.

E nesse ponto a Volkswagen acertou a mão com a Saveiro Cross. Se o CrossFox, um dos pontos de partida para o modelo (o outro, obviamente, é o Gol G5), acaba de passar por uma reformulação que finalmente o aliviou do excesso de nhenhenhéns emulatórios de SUV, a picapinha já nasceu elegantemente discreta, embora diferenciada.

OS PREÇOS

  • Volkswagen Saveiro Cross 1.6 - R$ 41.640 (com ar-condicionado, R$ 44.684)
Vendas em janeiro/2010:

Strada - 6.504 unidades (todas as versões)
Saveiro - 3.380 unidades (idem)

Os principais elementos "cross" da Saveiro, suficientes para que ela pareça mais "parruda" (como querem os executivos da Volks), são as partes de plástico preto que guarnecem os para-choques, faróis de neblina e caixas de roda; o rack de teto que desce da cabine e segue pela lateral da caçamba; o largo friso lateral na parte inferior das portas, "continuado" pelo degrau de acesso à carga, e estampado com o nome do modelo/versão; a repetição do nome na porta da caçamba (num adesivo facilmente retirável); e os pneus Pirelli Scorpion (de medida 205/60, em rodas de aro 15) com inscrição em branco. E é praticamente só isso. De resto, o desenho da Cross é o mesmo das demais versões da Saveiro: dianteira de Gol, o que é um acerto, e traseira contida, com lanternas retilíneas e funcionais (outro acerto). O caráter fluido e pontiagudo das linhas da Saveiro é acentuado pelo "mergulho" da carroceria -- consequência da suspensão traseira mais elevada que a dianteira, para suportar carga na caçamba. Assim, vista de lado, a picapinha parece uma flecha.

Reforçando a proposta de aventureira urbana, a Saveiro Cross é vendida apenas com cabine estendida, vale dizer, há espaço para bagagem atrás dos bancos de motorista e passageiro. A Volks sabe que boa parte dos proprietários do modelo jamais recolherá a capota marítima (item de série) para acomodar qualquer coisa na caçamba -- muito menos carga.

  • Murilo Góes/UOL

    Traseira tem lanternas contidas nas laterais e adesivo com nome do modelo/versão

O interior da picape é agradável. Ele une peças do Gol (como o painel) com o feeling do CrossFox (os bancos com padrão diferenciado, que, no caso, lembram rastros de pneu). Se não olharem para trás, motorista e passageiro vão se sentir a bordo de qualquer um dos reformulados compactos da Volks. Mas falta requinte para se sentirem num Polo.

IMPRESSÕES AO DIRIGIR
UOL Carros experimentou a Saveiro Cross num itinerário de cerca de 160 km, em estradas do interior paulista, a maior parte delas com asfalto muito bom. A experiência na terra foi curta, e não houve trechos com lama e demais desafios off-road de verdade.

O comportamento da picape é muito semelhante ao de um carro de passeio comum -- no caso, os compactos e "primos" Gol e Voyage. Fatores que poderiam fazer muita diferença, como a distribuição desigual de peso nos eixos e os pneus mais altos e largos, não chegam a incomodar. A suspensão com molas progressivas na traseira mostrou eficiência para neutralizar a ausência de carga na caçamba, situação em que o test-drive foi realizado, e o ruído da rodagem dos pneus no asfalto não chegou a invadir a cabine.

OS DETALHES DA SAVEIRO CROSS

  • Murilo Góes/UOL

    Motor da picape VW é o VHT 1.6

No entanto, outros barulhos o fizeram: o do motor, mostrando que o isolamento acústico da picapinha não é dos mais esmerados, e o da capota marítima, que em velocidades mais altas (mas sempre até os regulamentares 120 km/h) fica chacoalhando com o vento -- e é um som bem irritante, por se repetir indefinidamente. Outros colegas, que dirigiram outros exemplares da Saveiro Cross, confirmaram a chateação.

O funcionamento amigável do trem de força é uma qualidade a mencionar. O casamento do motor VHT de 1,6 litro com a transmissão manual MQ200, usada em outros modelos da Volks, é um dos mais harmoniosos do mercado, garantindo ótima dirigibilidade -- incrementada também pelo volante preciso e firme. No entanto, a picape ficou devendo um desempenho convincente em aclives, mesmo nos mais suaves. Reduções para a quarta ou mesmo terceira marchas não foram raras, e isso em estradas de traçado retilíneo, como Anhanguera e Dom Pedro.

A Volkswagen fez muito bem em colocar sensores de estacionamento como item de série na Saveiro Cross: é um equipamento fundamental para evitar acidentes (bobos ou graves) nas manobras de ré, prejudicadas pela escassa visibilidade através da janela traseira e pelos pontos cegos dos retrovisores laterais (um problema que notamos já no lançamento do Gol G5, cujas peças são iguais).

O consumo foi um ponto fraco do modelo. Rodando apenas em estradas, com etanol no tanque, o computador de bordo cravou 7 km/l; depois de 160 km de test-drive com a Saveiro Cross, a autonomia restante era de apenas 180 km. É pouco.

No geral, a picapinha aventureira da Volks mostrou-se uma boa opção para o consumidor que deseja expressar juventude e dinamismo por meio do carro que usa, mas sem gastar uma fortuna com um SUV ou utilitário lameiro de verdade -- e sem dirigir um carro que parece um brinquedo de armar. Na cidade e na viagem a dois no final de semana, o dono da Saveiro Cross não vai ter muito do que reclamar. E, mesmo que não se dê conta disso, será mais um soldado da Volks na batalha contra a divisão Strada do exército da Fiat.

*Viagem a convite da Volkswagen do Brasil

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