Gol de 700 cavalos chama Ferrari F430 para duelo na pista


Eduardo Bernasconi
Especial para UOL Carros

  • João Mantovani/Fullpower

    Dois competidores, um propósito: ser o mais rápido no quarto de milha

    Dois competidores, um propósito: ser o mais rápido no quarto de milha

Durante anos, a Ferrari ganhou provas em diversas categorias automobilísticas, com tecnologia de ponta e muito estilo -- só na F1 foram 28 títulos mundiais. Com isso, a paixão pela marca de Maranello fez de seus carros sinônimos de esportividade e status. No Brasil, o F430 desta reportagem carrega consigo mais de 500 cavalos, graças a modificações leves em seu V8, de 4,3 litros. Mas o dono só roda com de vez em quando, pois dá um trabalhinho sair de casa. Discreto, ele prefere o anonimato e confessa que já participou de provas de arrancada pilotando o Gol branco de 700 cavalos -- um bom exemplo da paixão brasileira por motores turbinados, afinal, temos o Volkswagen de tração dianteira mais rápido do mundo.

PÉ EMBAIXO!
Antes de sair, a Ferrari pede um tempinho para se aquecer. Em média, são 15 minutos -- somente na primeira partida do dia, feita por um botão no volante -- até o V8 estar pronto para acelerar. "Isso cansa um pouco, pois você fica louco para engatar primeira, mas tem de esperar. Além disso, usar o modelo no nosso pavimento desgraçado, com valetas e lombadas malditas, é tão sofrível quanto encontrar um carro branco como este das fotos para acelerar. Até os 200 km/h, não tem como ir na frente desses jatos turbinados. Se a briga começar nos 200 km/h, o buraco é mais embaixo", revela o proprietário.

O jato em questão é o Gol 1995, "bolinha", modificado com dianteira e traseira do Gol G4. Enquanto a Ferrari 2006 esquenta, o dono do VW tem que fazer centenas de manobras na garagem para passar pelo portão. Isso porque seu blocante limita o esterço das rodas. Ou seja: 15 minutos de espera daqui, outros 15 dali. No Gol, não há botões para virar o motor AP, que usa bloco alto de Golf e cabeçote de fluxo cruzado. Mas, se apertar no lugar certo, a pressão do turbo sobe imediatamente de 0,4 kg para 2,5 kg.

CONFORTO?
Uma palavra que pode ser esquecida quando o assunto é desempenho nesse nível é conforto. Mesmo com bancos de couro, ar-condicionado e direção hidráulica, a Ferrari não é o que podemos chamar de macia. Caso você desembolse cerca de R$ 750 mil para ter uma dessas, é melhor que esteja solteiro, pois vai chamar a atenção. Se for casado, sua mulher vai esquecer o utilitário esportivo alto e silencioso, só para não deixar o banco do passageiro disponível -- são apenas dois lugares.

No caso do Gol, a situação piora. E muito. Os bancos tipo concha não reclinam. Para agravar, o assento do passageiro perde espaço para um cilindro de ar comprimido responsável pelo funcionamento do booster. Quer mais? Cintos só de cinco pontos, interior com forração depenada, nada de ar-condicionado ou mesmo ventilação. Aqui é para derreter quem vai dentro. E também os pneus dianteiros R888, 225/50 R15, da Toyo, para endurecer a vida.

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Apesar de custar muito mais barato, o Gol consome mais combustível que a Ferrari e é muito mais difícil de pilotar. Tem equipamentos caros também. Para tracionar tanta força na dianteira, por exemplo, o par de pneus custa pelo menos R$ 500. A embreagem multidisco fica na casa dos R$ 2.500. Comparada à da Ferrari, porém, é baratinho: a peça italiana pode valer dez vezes mais do que essa especial para os turbos.

PREPARAÇÃO
A alimentação da cavalaria de ambos é a melhor possível: o italiano só usa gasolina Podium pelos oito bicos, um para cada cilindro. No Gol, também são oito bicos, porém, dois para cada cilindro. "Mantivemos a injeção FuelTech FT400 com três mapas: um para gasolina comum, um para álcool e um para metanol. Se o rachão de Interlagos demorar para rolar, fico só no álcool. Quando a data da prova se aproxima, passo para o metanol e assim permanece por uns dias", conta Rafael Nogueira, sempre entre os ponteiros da competição.

O resultado destas dietas pode ser conferido pelo ronco de escape dos bólidos: no F430, um sistema em inox, especial para o modelo, veio da Itália e pouco acrescenta em potência, pois o original já é feito para render forte. Aliado ao chip e filtros esportivos inbox (elementos internos), a potência do motor passa dos 500 cv. O ronco é grave em rotações baixas e médias. Em alta, transforma-se numa barulheira aguda e agressiva até as 8.500 rpm, quando qualquer uma das seis marchas é trocada nas borboletas de alumínio atrás do volante. A correria para ver o carro rasgar a reta do autódromo em Piracicaba (ECPA) no dia do ensaio justifica sua legião de fãs ao redor do mundo.

Em ambos, há botões para todos os lados, e as funções são curiosas. Quando entrei na Ferrari, o dono falou: "Nunca toque nesse botão". Ele se referia à chave no volante que desliga o controle de tração e torna o F430 um carro de corrida descontrolado. "Sem ele, a traseira fica arisca e é fácil se perder na tocada". Apesar da curiosidade, obedeci e me livrei de ter que trabalhar 20 anos para pagar a conta do estrago. Quando enfiava o pé nas curvas, o sistema sensível cortava motor e a rotação ficava limitada até alinhar o carro.

ELETRÔNICA
"No Gol tem que apertar tudo", explicou Nogueira, mostrando o acionamento das três bombas eletrônicas de alimentação e ventoinhas elétricas, por exemplo. Caso esqueça de algum, problemas como aquecimento ou falta de combustível mandarão para o lixo os mais de R$ 40 mil investidos no AP. E esses quatro cilindros quando quebram... quebram de verdade. O escape curto depois do turbo MasterPower, montado na GTA Turbos, ronca grosso de baixa até alta -- e o motor também gira pouco mais de 8.000 rpm.

Na pista, a briga é parelha se considerarmos apenas 402 metros de aceleração, como em uma prova de arrancada. O Gol, com preparação relativa à categoria Turbo B, anda na casa dos 11 segundos baixos. A Ferrari vai cumprir o traçado em quase 12 segundos. Se a pista fosse (bem) mais longa, seria possível ver o ponteiro da F430 baixar até os 315 km/h, velocidade que atinge com segurança, pois foi desenvolvida para tal feito. Tanto que é equipada com freios de carbono para ancorar este potencial. Por essas e outras, estar a 250 km/h a bordo de um VW Gol pode proporcionar as mesmas (ou até mais) emoções. Afinal, ficar na frente de uma Ferrari até a casa dos 250 km/h já é motivo de sobra para comemorar.

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