Freios com ABS em motos podem salvar vidas, se o preconceito desaparecer

Cicero Lima

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

Infelizmente, o preconceito parece estar em todo canto. Ataques envolvem diversas esferas -- os principais, claro, envolvem questões raciais, ideais religiosos ou orientação sexual. Preocupante é a capacidade de muitas pessoas de emitir opiniões sobre temas que não conhecem -- esse, aliás, é um dos significados para a palavra "preconceito" no dicionário: "opinião ou sentimento desfavorável, concebido antecipadamente ou independente de experiência ou razão".

No mundo do motociclismo, uma discussão chama atenção por estar permeada pelo preconceito: a suposta inutilidade dos freios com sistema ABS (antitravamento das rodas). É incrível o número de pessoas contrárias ao uso do sistema, sendo que a maioria afirma nunca ter pilotado uma moto com ABS. É o caso do "não sei, mas não gosto".

Críticos alegam que basta ter experiência para dosar o manete e o pedal durante a frenagem. Isso, porém, é uma grande bobagem: no momento da emergência a maioria dos pilotos -- mesmo aqueles que se dizem "vividos" --  acaba apertando o pedal e o manete com força e que a sorte os ajude. O resultado é uma frenagem agressiva que trava as rodas, aumenta o espaço que a moto percorre e, na maioria dos casos, leva à perda de controle e ao tombo.

Diferente do ser humano, que é limitado por uma série de fatores, entre eles o pânico, o sistema ABS é totalmente integrado ao equipamento e pode interpretar as rotações das rodas por meio de sensores e, se uma delas está prestes a travar, dosar o fluxo hidráulico de forma ideal. Atuadores liberam a roda cada vez que existe a possibilidade de travamento, tudo em milésimos de segundo. Nenhum piloto comum seria capaz de fazer esse cálculo -- análise das condições do piso, modulação da pressão nos freios -- de forma tão precisa e veloz.

Virou lenda

Segundo dados do IBGE, mais de 50 milhões de pessoas acessam as redes sociais no Brasil. Essas redes têm a força de propagar muitas informações e, infelizmente, muita coisa inútil ganha força do "boca a boca" virtual. Uma dessas informações falsas é a de que o ABS é inútil em casos de emergência.

A questão do uso dos freios ainda é dominada por lendas que se propagam entre os motociclistas. Existe um mito dizendo que se acionar o freio dianteiro da moto ela pode capotar. Em algumas lojas da região Nordeste, por exemplo, o comprador já pede para que o mecânico "desligue o freio dianteiro".

Apesar de tantos boatos e do preconceito, o (Contran Conselho Nacional de Trânsito) publicou uma medida que obriga os fabricantes a equipar as motos acima de 300 cc (ou 22 cavalos) com o sistema ABS. Nas motos abaixo dessa capacidade cúbica, o fabricante poderá optar pelo uso do ABS ou CBS (sistema de freio combinado, que distribui a frenagem entre as rodas).

Haverá um escalonamento: 10% das motos novas até o ano de 2016; 30% em 2017; 60% em 2018; e, finalmente, 100% das motos fabricadas em 2019.

Ou seja, em quatro anos, todos estarão mais seguros, independente da opinião do motociclista, preconceituosa ou não. Mas muitos acidentes podem ser evitados -- e vidas podem ser salvas -- antes disso.

Cicero Lima é especialista em motos e em segurança sobre duas rodas

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