Encontro de harlistas ganha ar de religião em Goiás; até padre apareceu

Aldo Tizzani

Da Infomoto, em Caldas Novas (GO)

  • Aldo Tizzani/Infomoto

    Hells Angels? Abutres? National HOG em Caldas Novas virou peregrinação

    Hells Angels? Abutres? National HOG em Caldas Novas virou peregrinação

Uma das marcas mais cultuadas do mundo, a centenária Harley-Davidson tem seguidores também no Brasil. Fanáticos. Prova disso é que o National HOG Rally (sendo que HOG é a sigla para o grupo de proprietários de Harley, em uma tradução livre do inglês), realizado em Caldas Novas (GO), no feriado prolongado de 18 a 21 de abril, ganhou ares de peregrinação.

Teve até padre abençoando os harlistas fiéis, mas salmos e cantos gregorianos deram espaço ao rock'n roll e música country americana, algo comum neste tipo de evento. Sacerdócio também sobre duas rodas: padre Vanderlei Bock, de Canoas (RS), foi até Caldas Novas na companhia de cinco amigos. Além deles, a edição 2015 reuniu mais de 1.000 participantes e 600 motocicletas, segundo a organização.

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Imagem de Nossa Senhora Aparecida foi a acompanhante do padre Vanderlei Bock, dono de uma Road King 2008, de Canoas (RS) até Caldas Novas
Vai na fé

Padre Bock conduziu uma Road King 2008 e levou, na garupa, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. "O centro das atenções pode até ser a Harley, mas não esqueço de celebrar a dádiva divina da vida", afirmou o sacerdote, que afirmou fazer procissões anuais em sua cidade. Sempre de moto.

Peregrinação é a palavra para definir a viagem de Mário Fidalgo, que saiu de Belém (PA) e rodou mais de 2.200 quilômetros com sua Ultra Classic, para rever amigos de estrada e trocar experiências. Fidalgo destacou o clima de "irmandade" entre os entusiastas da grife: "Podemos rodar em qualquer lugar do mundo sem passar por apuros. Sempre haverá um harlista disposto a ajudar", garantiu.

O empresário paraense, aliás, só usa a Harley em viagens especiais. Para a rotina, uma Honda serve, enquanto outra BMW é usada para viagens mais curtas. A Ultra Classic fica reservada apenas para "grandes aventuras", confessou Fidalgo.

De mais longe vieram os empresários Roberto Paiva e Wagner Andrade. Saindo de Recife (PE), trafegaram 2.500 quilômetros sobre outras duas Ultra Classic, com as mulheres nas garupas, por três dias na estrada, com direito a paradas em Itaberaba e Luis Eduardo Magalhães, ambas na Bahia.

"Foi quase um Iron Butt [prova motociclística de resistência realizada nos Estados Unidos, cujo nome pode ser traduzido como "bunda de ferro"], já que percorremos 1.000 quilômetros só no primeiro dia", disse Paiva. 

Paiva estende a devoção pela Harley-Davidson ao vestuário, que se torna praticamente um hábito. "Aproximadamente 70% das minhas roupas são da grife da marca", calculou. No caso de Andrade, até a aliança de casamento leva o emblema da marca. Mas... a aliança?! "Em qualquer grupo harlista, ninguém quer saber o que você é ou faz. O importante são as experiências que podem ser trocadas", defendeu.

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Evento teve atividades como esta prova de habiliadades em circuito fechado

Sem falta

Vale notar a abertura do HOG: antes dominado por homens, o evento tem tido participação cada vez maior das mulheres. Uma delas é Alana Dias, que veio num comboio de 25 motos que partiram de Campo Grande (MS). O percurso de 1.150 quilômetros foi realizado em duas etapas, com parada estratégica em Itumbiara (GO).

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Alana Dias é designer de uma linha de produtos chamada "Lucky On The Road" e fez sua primeira peregrinação
Conduzindo uma HD 883 Low, carburada, a sul-matogrossense participa pela primeira vez de um evento como este. "Aqui encontro pessoas que carregam o mesmo espírito de liberdade e a mesma paixão que a minha", disse acreditar a jovem motociclista que desenvolve uma linha de roupas, acessórios, capacetes personalizados e itens de decoração batizada de "Luck On The Road" (sorte na estrada).

Já Valéria Aranha, dentista do Rio (RJ), é veterana: afirma ter rodado, ao longo de dez anos, quase 250 mil quilômetros a bordo de sete modelos como Fat Boy, Rocker e 883, em rotas pela América do Sul e até Estados Unidos. Com o roteiro da vez, acrescentou 1.350 quilômetros à contagem, viajando junto com quatro amigos. "Estou aqui para curtir a estrada e rever amigos", afirmou a dentista, para depois ressaltar com orgulho nunca ter faltado a uma edição do HOG.

A façanha deste ano de Valéria deve se juntar às demais: todas estão registradas no colete de couro, em bordados que imitam placas das rodovias por onde passou, como se fossem ex-votos.

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Valéria Aranha, do Rio (RJ), afirma ter rodado quase 250 mil quilômetros de Harley; está tudo registrado em bordados no colete de couro

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