Agilidade sobre carros transforma moto em salva-vidas ideal

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

  • André Gomes de Melo/Divulgação

    Bombeiros do Rio usam motos para combater pequenos incêndios com agilidade

    Bombeiros do Rio usam motos para combater pequenos incêndios com agilidade

Na maioria das cidades brasileiras, o clima de animosidade entre motoristas e motociclistas é evidente. O que poucos sabem é que, nessa briga por espaço, alguns veículos de duas rodas têm missão nobre: salvar vidas e amenizar o sofrimento. Por conta da agilidade, as motos são cada vez mais usadas para apagar incêndios, atender acidentados, transportar material médico e até mesmo órgãos para transplante.

Essa é a rotina do motofretista Adeonir de Barros, 46 anos, que há 15 trabalha nas ruas de São Paulo. "É uma corrida contra o tempo, mas tenho que tomar o máximo cuidado, uma vida pode depender da minha entrega", afirmou.

Arquivo pessoal
Com 15 anos na ação, Adeonir de Barros já levou de documentos a córneas
Deonir, como é conhecido entre seus colegas, se especializou na coleta e entrega de material biológico e pode dizer que já transportou de tudo: de documentos a córneas. Ele faz parte de um batalhão de motofretistas ligados à empresa Titan Express, que transporta cerca de 2.500 produtos biológicos por mês na cidade de São Paulo, com regras bem específicas: medicamentos usados em quimioterapia, por exemplo, devem ser transportados em até seis horas.

As motos usadas possuem rastreador e até sensor de temperatura, para comprovar que o tempo e as condições de armazenamento foram respeitados.

Resgate ágil

Não faltam bons exemplos da eficácia da motocicleta como instrumento para salvar vidas. Em meio ao trânsito caótico de cidades como São Paulo, a moto confere rapidez aos profissionais do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e também do Corpo de Bombeiros.

A aposentada Sônia Fani Rosembaun comprovou a agilidade dos bombeiros que cruzam a cidade sobre duas rodas. Após escorregar ao sair da cama, Sônia se viu imobilizada, sem poder se levantar. Foi socorrida em poucos minutos por um profissional do atendimento emergencial, que atendeu a ocorrência na metade do tempo que alguém de carro ou caminhão levaria.

Já tem moto até apagando incêndio. Recentemente os bombeiros da cidade do Rio de Janeiro passaram a usar modelos equipados com mangueiras e cilindros de pressão. O equipamento faz o rescaldo de pequenos incêndios -- em veículos ou latas de lixo, por exemplo.

Além de poupar tempo, o uso da moto deixa veículos maiores livres para atender ocorrências mais graves. Até mesmo equipamentos pesados como o desencarcerador -- o alicate para cortar aço -- já é transportado sobre duas rodas.

Transporte de informação

Muitos ainda enxergam cada motociclista no trânsito como um "cachorro louco", mas muitos estão ali para salvar vidas.  O soldado da PM Paulo Sérgio roda mais de 70 quilômetros por dia com sua Honda Tornado. Bombeiro há 10 anos, diz já não se lembrar de quantos resgates fez. "De cada acidente tiro uma lição sobre como evitá-lo".

Arquivo pessoal
ONG Riders Health, onde Ann Rengo é voluntária, usa a motocicleta para alcançar lugares isolados no Quênia
A mesma filosofia se aplica do outro lado do Atlântico. Na África, a moto vira importante ferramenta no combate a doenças como Aids e Ebola no continente. No Quênia, por exemplo, a moto é usada para levar informações e também coletar amostras de sangue de pacientes.

A cada ano, mais de 300 mil crianças são infectadas pelo vírus HIV na África, sendo que a maioria delas herda a doença da própria mãe. Boa parte dos casos poderia ser evitado com o uso de drogas anti-retrovirais e mais informação -- práticas que reduzem o risco de contágio do recém-nascido de 20% para menos de 1%.

Espalhar esse tipo de informação e distribuir a medicamentos é uma rotina na vida de Ann Rengo. Com uma Yamaha AG, de 100 cc, ela percorre aldeias informando as grávidas sobre o risco de infecção da doença. Ela é uma das muitas funcionárias da ONG Riders Health, que usa a mobilidade da motocicleta para atingir lugares isolados como as regiões de Matete e Lugaria, no Quênia.

Graças ao trabalho da Riders Health, mais de 400 mil amostras chegam aos laboratórios todo ano para serem analisadas e agilizar o tratamento aos doentes.

Seja nas badaladas avenidas de São Paulo ou nas trilhas da África subsaariana, as motos podem estar levando a cura para uma doença ou salvando uma vida. É bom pensar nisso antes de aderir ao "combate" entre donos de carros e motociclistas.

Divulgação
A Riders Health usa motos para facilitar o transporte de 400 mil amostras a cada ano

* Cícero Lima é especialista em motos e em motociclistas

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos