Baratas na compra, motos genéricas chinesas dão prejuízo dez anos depois

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

Marcas desconhecidas tentaram conquistar o mercado brasileiro de motos no começo do século 21 vendendo modelos importados da China. Eles eram completos e vendidos por preço menor que os equivalentes nacionais. Uma década depois, os compradores sofrem sem peças de reposição, nem assistência técnica.

Hoje desconhecidas do grande público, marcas como FYM, Miza, Garini, Green Motors e Sundown, entre outras, tentaram revolucionar o mercado das motos de baixa cilindrada: apesar do preço menor, o design copiado de modelos já consagrados se mesclava a "luxos" não vistos nas motos básicas nacionais como freio a disco, partida elétrica, indicador de marcha engatada. Eram as "genéricas" -- o apelido das motos pegou carona no termo utilizado para se referir a medicamento com o mesmo princípio ativo, mas preço menor quando comparado a um fabricado por laboratório famoso.

Alguns importadores viram nessas motos genéricas a chance de alto lucro, pois comprariam muito barato e venderiam a preços maiores e ainda assim atrativos, ajudados pelo câmbio e pela oferta de crédito. Até 2008 era fácil comprar uma moto zero quilômetro: bastava preencher a ficha e sair acelerando. 

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Green Sport: 150 cc tinha jeito esportivo e pedia R$ 3.069
FÁCIL COMPRAR, DIFÍCIL VENDER
Feitas na China, essas motos eram destinadas a um tipo de consumidor com hábitos bem diferentes dos brasileiros. Na Ásia, os motociclistas não percorrem grandes distâncias e são mais comedidos em relação à velocidade, por isso as motos não são tão exigidas. Aqui no Brasil, o motociclista usa a moto em viagens e tem o hábito de usar o motor sempre em altas rotações, exigindo o máximo de mecânica e ciclística. Infelizmente, as motos oferecidas pela maioria dos fabricantes não suportaram o uso severo e começaram apresentar problemas, com o agravante da falta de peças para reposição.

Para Rogério Rinaldo, 54, sua Green Sport 150 atende ao modo de uso original do modelo. "Saio apenas para passear nos finais de semana", afirma. Quando precisou de assistência técnica, porém, penou até achar alguém que resolvesse os problemas.

Outro senão é o preço de revenda: "Sei que paguei barato, mas não quero dar a moto. Ninguém quer uma moto de fábrica que não existe mais", aponta Rinaldo.

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Miza Fast queria ser rival "completinha" de Honda CG e Yamaha Factor e Fazer; modelo 2011 está tabelado em R$ 3.536
Na maioria dos casos, nem as concessionárias das marcas aceitavam recomprar ou sequer aceitar os modelos na troca. Essa é outra grande diferença entre o mercado brasileiro e o chinês: a moto é vista como bem durável por aqui, algo que pode ser revendido. Na China, é utilizada até o fim da vida útil e depois descartada.

Dono de scooter FYM, o vendedor Raoni Csik Lima, 31, tem noção que usar essas motos pode dar prejuízo. "Paguei barato no scooter, mas sei que se precisar revender perderei dinheiro, uso apenas como meio de locomoção". Lima já rodou 2.600 km com o scooter e quando precisou de peças teve que recorrer ao mercado paralelo, pois a marca já não existe no Brasil.

Alguns comerciantes, porém, se especializaram em atender o consumidor que comprou esse tipo de moto. "Aqui ninguém fica com a moto parada, sempre damos um jeito de arrumar", afirma Alexandre Soares, sócio da FG Motors, que fica no centro de São Paulo (SP).

Lojas como esta oferecem peças, reparos e até revendem motos chinesas populares. Esse tipo de serviço pode ser considerado um paliativo para os efeitos colaterais que atingiram os consumidores.

SEM CRÉDITO, SEM MERCADO
Outro fator que praticamente condenou o mercado de motos genéricas foi a restrição ao crédito pelas instituições financeiras nos últimos cinco anos. Depois de 2008, adquirir uma moto popular passou a ser complicado pela exigência de comprovação de boa renda e emprego formal, o que praticamente inviabilizou negócios e levou algumas empresas a abandonaram o setor. Até mesmo algumas marcas que já montavam as motos no Brasil fecharam as portas.

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