Falta de pontos de descarte faz capacete velho virar dor de cabeça

Aldo Tizzani
Carlos Bazela

Da Infomoto

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    Motociclistas mais experientes chegam a fazer "coleção" de capacetes usados em casa

    Motociclistas mais experientes chegam a fazer "coleção" de capacetes usados em casa

Motociclistas com mais experiência geralmente acumulam muitas histórias para contar e também muita "tralha" para guardar, como os capacetes usados por  ao longo da vida. Principal proteção para pilotos e garupas, o equipamento ocupa espaço, é difícil de guardar e, com o passar dos anos, após ser "aposentado", pode se tornar uma grande dor de cabeça para o dono. Isso porque quase não existem postos para o descarte adequado.

Na maioria dos manuais de uso, existe uma recomendação para que os capacetes sejam substituídos após três ou quatro anos de uso. Neste período, há uma diminuição da espessura da espuma e o produto fica mais frouxo, diminuindo o conforto. Pior: em caso de acidente, o conjunto perde a eficiência e pode até se mover ou sair da cabeça, o que aumenta os riscos de lesão.

Em caso de queda que resulte em rachadura, o capacete deve ser substituído imediatamente, mesmo que tenha pouco tempo de uso. "O impacto, ainda que superficial, provavelmente vai comprometer as propriedades de segurança", explicou Jonathan Aron, diretor da BR Motorsport, importadora dos capacetes AGV, LS2 e NoRisk.

Num mundo ideal, todos os capacetes que chegaram ao fim da vida útil seriam descartados em postos de coleta e encaminhados diretamente às fabricantes, que, seguindo as determinações do Plano Nacional de Resíduos, encaminhariam as partes recicláveis para reaproveitamento e dariam a destinação correta aos demais itens, assim como fazem com o restante do lixo industrial. 

Mario Villaescusa/Infomoto
Vida útil de um capacete varia de três a quatro anos; após esse período, espuma menos espessa reduz conforto e proteção à cabeça em caso de acidente
Infelizmente, as coisas não funcionam assim. Embora se tenha poucas informações concretas a respeito, sabe-se que, do total de capacetes existentes no Brasil (há 23 milhões de motocicletas no país, número que pode ser duplicado quando se fala em capacetes, uma vez que o uso do equipamento também é obrigatório para o garupa), um percentual ínfimo recebe o fim correto quando chega ao prazo de validade.

FALTAM INTERMEDIÁRIOS
Infomoto ligou para várias lojas especializadas no produto em São Paulo (SP), para saber se, assim como ocorre com pilhas, baterias ou celulares, alguma contava com serviço de coleta de capacetes. Nenhuma respondeu afirmativamente. "Nós fazemos apenas a revenda ao consumidor. Só recebemos de volta capacetes com questões de garantia", comentou Cíntia Oliveira, da Casa do Capacete.

"Você pode até trazer para nós, mas vamos jogar no lixo da mesma forma que você faria em casa", respondeu um funcionário de outro estabelecimento, que não quis se identificar.

Infomoto
Partes metálicas, casco de plástico e isopor interno de um capacete podem ser encaminhados para reciclagem; demais partes precisam ser descartadas como lixo industrial
As fabricantes, por sua vez, informaram que dispõem, sim, de programas de reciclagem e descarte correto dos capacetes (chamados de "logística reversa"), em esquema semelhante ao de descarte de pneus. "Nós recebemos as unidades que os clientes não usam mais, desmontamos e encaminhamos as peças de acordo com o tipo de matéria-prima", afirmou Oswaldo Coelho de Souza, diretor da Starplast, fabricante das marcas Fly, Peels e Bieffe.

Segundo ele, de um capacete antigo é possível reciclar as partes metálicas, o casco (plástico) e até o isopor interno, que pode ser transformado em blocos para drywall (aquelas chapas de gesso usadas para dividir ambientes internos de edificações). Já as partes não reaproveitáveis têm que ser descartadas seguindo as normas para resíduos da indústria, conforme explicado acima.

Gianfranco Ugo Milani, gerente de Vendas da Taurus, outra fabricante do setor, frisou que as fábricas procedem com os itens não recicláveis da mesma forma que fazem com as peças que, durante o processo de montagem, ficam fora do padrão de conformidade. Entretanto, em sua visão, é preciso haver um canal direto entre marca e consumidor para facilitar o processo. "O cliente deve entrar em contato com o fabricante para devolver o produto, para que o fabricante dê a destinação certa a ele", apontou.

Falta ainda, como diria Mané Garrincha, "combinar com os russos", no caso os lojistas. Eles são o canal mais fácil para que o cliente deixe seu capacete usado e o fabricante vá buscar. Enquanto todas as partes não chegarem a um consenso, os velhos capacetes continuarão a ser objetos incômodos nas estantes de garagens, ou, pior ainda, seguirão da cabeça do motociclista direto para o lixão.

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