Ex-motoboy empresaria cantor de forró e dá carona a senador nas horas vagas

Cicero Lima

Colunista do UOL

  • Mário Villaescusa/Infomoto

    Valdo Rodrigues, ex-motoboy e empresário, coloca Suplicy na garupa há 12 anos

    Valdo Rodrigues, ex-motoboy e empresário, coloca Suplicy na garupa há 12 anos

Quem nunca sentiu aquela pontinha de inveja ao acompanhar uma motocicleta passando direto por entre carros parados no engarrafamento? Parece até que, em alguns momentos, a visão do piloto sobre duas rodas rompendo o tráfego é o combustível que alimenta a intolerância entre motoristas e motociclistas.

Na Semana da Mobilidade a sociedade costuma se abrir a discussões que incluem a convivência entre diferentes veículos e modais. É o momento de buscar soluções para a falta de alternativas e também para enfrentamentos que não deveriam ocorrer. O confronto é fruto da falta de planejamento para o transporte individual e coletivo não apenas na cidade de São Paulo, mas em todos os grandes centros do país.

Por baixo do capacete, porém, encontram-se histórias curiosas de superação, amizade e crescimento profissional, que demonstram a importância da motocicleta na rede social (real) das grandes cidades.

INCLUSÃO PELA MOTO
Empresário do ramo de transportes e serviços, Valdo Rodrigues, chegou da Paraíba aos 15 anos e fez sua vida graças à moto. Trabalhando como motoboy, alimentou a família e deu educação aos filhos. Com o tempo, virou a mesa e passou a ser patrão.

Aos 42 anos, Rodrigues acostumou-se com a correria da cidade e também a conviver com os riscos da antiga profissão. Os conselhos são básicos, mas importantes: não acelerar forte nas saídas de farol e manter uma velocidade constante.

Reprodução
Além das empresas de entregas e serviços, Valdo Rodrigues se aventura como empresário do cantor de forró Ivanildo Marques, também ex-motoboy.
Além da experiência sobre duas rodas, Valdo também usa a criatividade para enveredar por outros caminhos, no caso, o mundo artístico. Sua atual empreitada é a de empresário musical de um grupo de forró do amigo Ivanildo Marques. Rodrigues diz que o apoio é merecido: "Ele também era motoboy e tem muito talento, quem escuta o som já quer logo balançar o esqueleto", diverte-se.

CARONA INESPERADA
O período no guidão da motocicleta rendeu outra história inusitada. Após receber um telefonema, se viu levando na garupa o senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Após 12 anos, o favor prestado gerou uma uma amizade com o agora candidato ao quarto mandato nas Eleições 2014. "Já levei o senador para lugares distantes como São Bernardo do Campo, ele é um garupa tranquilo", afirma Rodrigues.

Esta é a solução esporádica encontrada pelo senador para ganhar tempo no horário de rush da cidade de São Paulo. "Sem a carona, ficaria bem mais difícil cumprir a agenda de entrevistas e palestras, principalmente no horário de pico", explica Suplicy. "Quando o trânsito está travado e tenho compromissos importantes, chamo meu amigo Valdo e ele resolve".

Assim como Rodrigues, Suplicy alimenta um vínculo forte com o veículo de duas rodas. Quando jovem pilotava uma Vespa; mais tarde, já como professor da Fundação Getúlio Vargas, usava uma Honda CB 360. No final da década de 1970, atuou como repórter e colunista na Folha de S.Paulo, e usa a moto para se deslocar. "Saia tarde da Folha e gostava de pilotar pela cidade", lembra o senador, que já não pilota com tanta frequência aos 73 anos.

Questionado sobre pagamento, Rodrigues diz não poder, nem querer cobrar. Caso a carona fosse remunerada, se converteria no serviço conhecido como "moto-táxi", atividade que não é permitida na cidade de São Paulo.

Mário Villaescusa/Infomoto
"Sem a carona [de moto], ficaria mais difícil cumprir a agenda", justifica Suplicy
UM OUTRO OLHAR
Ter noção dessas trajetórias poderia mudar o olhar da atual administração paulistana sobre a motocicleta como veículo? Talvez. Atualmente, a bandeira levantada é a da ação positiva com criação de ciclo-faixas e vias dedicadas. Mas é óbvio que a cidade deve encontrar formas para resolver a questão da mobilidade -- sobretudo do formato que prega o uso do carro particular como única forma de deslocamento -- sem que uma campanha exclua a anterior.

Apesar de encampar o uso da bicicleta, Prefeitura, SPTrans (Secretaria Municipal de Transportes) e CET (a companhia responsável pela engenharia de tráfego na cidade) acabaram com o programa de criação de faixas exclusivas e bolsões de estacionamento para motos.

São Paulo poderia seguir grandes cidades, no Brasil e até mesmo na Europa (Paris é um exemplo), que não apenas abraçaram a realidade do uso das motos, com campanhas e ações de segurança, como também instituíram o serviço de moto-táxi. De forma organizada, a democratização do uso traria ganhos, seja como nova fonte de renda para profissionais do guidão, seja como opção de transporte aos cidadãos.

Com experiência, Rodrigues garante que pilotar com atenção é o suficiente para reduzir riscos e viabilizar o modal. "Tendo cuidado é possível fazer o trabalho, ganhar tempo e não se acidentar", afirma o ex-motoboy. O amigo senador também se mostrou favorável.

Paula Giolito/Folhapress -0 29.8.2011
Rio de Janeiro (RJ), Ribeirão Preto (SP), no sudeste; Maringá (PR), no sul; Campina Grande (PB) e Sobradinho (CE) são cidades que apostaram ou ainda apostam no serviço de moto-táxi. Paris é exemplo europeu e mais próximo à realidade paulistana
Fica claro que a resolução de problemas de mobilidade urbana passa pela convivência de todos os modais: bicicletas, motos, carros, veículos comerciais e pesados e, claro, meios de transporte de massa. Todos aliados.

Cícero Lima, jornalista, é aliado de todos na busca por um trânsito melhor

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