Compra de moto na internet é chamariz para golpes; conheça os mais comuns

Cicero Lima

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

A internet simplificou muito a compra ou venda direta de produtos. Basta uma pesquisa rápida em sites especializados e pronto: vários anúncios estarão à disposição para negociar diretamente com o proprietário, sem intermediários. Tudo muito prático, mas também perigoso: é cada vez maior o número de golpistas que aproveitam as facilidades da rede para fisgar vítimas, quase sempre usando a mesma tática: ofertas com preços bem abaixo do mercado e/ou condições incríveis de pagamento.

O mercado de motocicletas é um dos nichos nos quais agem as quadrilhas. Elas usam dos mais variados artifícios para ludibriar a vítima, de acordo com a complexidade do golpe: telefonemas em nome de empresas, fotos bem convincentes e até documentos verdadeiros são usados para mostrar que, apesar do preço muito baixo, trata-se mesmo de um negócio "seguro". 

Arte UOL Carros
Sempre desconfie de uma oferta com preço muito abaixo da média do mercado
Ao navegar por sites de compra e venda de motos, é possível encontrar diversos desses golpes. Aprenda abaixo como funcionam alguns, para poder escapar de problemas caso queira fazer negócio por meio do computador.

TRAUMA FAMILIAR
História clássica em que o golpista se apoia num drama familiar para justificar o valor muito abaixo da média. Pode ser, por exemplo, o "filho" que se acidentou andando naquela motocicleta, provocando traumas na mãe. "Minha mulher chora cada vez que vê essa moto", argumenta o golpista.

Ao consultar o número de Renavam e pedir os documentos, o comprador não encontra problemas, e é aí que entra a segunda parte do plano. O suposto vendedor avisa que outra pessoa entrou em contato, mas que dará preferência à vítima, desde que esta deposite um sinal -- geralmente acima de R$ 2.000 -- para "segurar" a oferta. Ao chegar para buscar a moto, ela não existe.

E como o golpista enviou documentos e dados válidos para a vítima? De uma forma simples e inacreditável: são cópias de documentos enviados por outro anunciante, a quem ele se fez passar por potencial comprador. Depois é só achar imagens de uma unidade com as mesmas características do documento apresentado e esperar que alguém fisgue a isca. 
Almeida Rocha/Folhapress
Para aumentar credibilidade, golpistas usam documentos de motos verdadeiras
ESTRANGEIRO BONZINHO
Outro golpe comum é o do falso estrangeiro que morava no Brasil, geralmente médico ou advogado, mas que voltou ao país de origem. Levou a moto consigo, mas não consegue regularizá-la lá e, por isso, resolveu vendê-la a um preço bem mais baixo, para fazer compensar os custos de repatriação. E é o comprador quem terá de arcar com esses gastos.

Depois de vários e-mails, a negociação é fechada e o golpista envia uma falsa ordem de conhecimento de carga da moto, atrelada ao depósito de parte das taxas de importação mais despesas de transporte da moto ao Brasil. Segundo o documento, o valor deve ser depositado na conta do advogado do vendedor, que mora no Brasil e cuidará dos trâmites burocráticos. 

O autor do golpe lembra ao comprador que a viagem é de navio e, portanto, a aquisição demorará dez dias para chegar. Pede ainda que, após esse prazo, a vítima acompanhe no site da empresa a previsão de chegada ao porto brasileiro. Não é preciso dizer que a carga jamais chegará, que o telefone do advogado não existe e que os e-mails enviados a partir de então não têm mais resposta.

"GANHEI, MAS NÃO QUERO"
O golpe da "Moto Prêmio" envolve muita criatividade e lábia. O falso vendedor anuncia um modelo zero quilômetro por um preço bem abaixo do mercado, alegando que o ganhou em uma promoção de posto de gasolina de outra cidade. Porém, como não anda de moto, prefere vender o prêmio, orientando que o comprador retire-o em qualquer concessionária da marca em questão, escolhendo até a cor de sua preferência. 

Getty Images
Nenhum negócio é 100% seguro até que as chaves da moto estejam na sua mão e os documentos, em seu nome. O ditado "quando a esmola é demais, o santo desconfia" é mais do que aplicável nessas situações
Para envolver a vítima, o golpista informa o telefone do posto, nome do gerente e até a empresa promotora do concurso. Quem responde a todos esses contatos, obviamente, é a própria quadrilha, que chega a enviar material promocional e o regulamento do concurso. É quando vem o bote: a suposta empresa exige que o comprador faça um depósito em nome do suposto ganhador, por exigência da Receita Federal e da própria promotora.

ANSIEDADE E GANÂNCIA, OS VILÕES
Por que as pessoas continuam a cair nesse tipo de armadilha? "O ingrediente para cair em um golpe é a vontade de levar vantagem e a ansiedade em fechar o negócio", afirmou um executivo em transações online, que preferiu não se identificar.

Classificados de moto na internet são um chamariz para muitas pechinchas. Não que todas sejam fraudulentas, mas é preciso desconfiar de preços demasiadamente baixos, principalmente se o vendedor faz pressão para receber "sinal", "caução" ou algum tipo de dinheiro antecipado. A maioria dos sites informa os cuidados a serem tomados durante a transação. O problema é que vários compradores, apressados e com medo de perder um "bom negócio", deixam-se levar pela empolgação.

Para a Justiça brasileira, trata-se de crime de estelionato, previsto no famoso Artigo 171. A vítima deve registrar um Boletim de Ocorrência com todos os detalhes e documentos disponíveis, mas as chances de recuperar o dinheiro quase sempre são ínfimas. Afinal, os golpistas fazem de tudo para não deixar rastros: não têm endereço fixo e se escondem por trás de personagens. Vendem uma fantasia e entregam às vítimas uma bela dor de cabeça.

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