Sede da Copa 2018, Rússia pede cuidado ao motociclista

Cicero Lima

Colaboração para o UOL

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    Empresário João Batista Lima cruzou a Rússia numa BMW R 1150 GS em 2009: alfabeto, distâncias e fuso-horários são pontos cruciais de adaptação

    Empresário João Batista Lima cruzou a Rússia numa BMW R 1150 GS em 2009: alfabeto, distâncias e fuso-horários são pontos cruciais de adaptação

A Copa do Mundo acabou e deixou uma ótima impressão para os estrangeiros que estiveram no Brasil. Segundo pesquisa do instituto Datafolha, o índice de satisfação se aproximou dos 95% no item "hospitalidade". O transporte também recebeu elogios e, ao contrário do que a imprensa pregava, não houve caos durante o Mundial. Muitos turistas vieram de carro ou moto, e mais de 5.000 veículos cruzaram a fronteira com a Argentina.

Em meio a tanto sucesso e euforia, já tem torcedor fazendo planos para visitar a Rússia, sede da Copa de 2018. Apesar de distante daqui, o maior país do mundo é um destino escolhido por vários viajantes de moto brasileiros, que encontraram lá uma realidade muito diferente em relação ao trânsito e costumes locais. (Sem contar isso, claro).

A relação do povo russo com seu automóvel, em especial, é bastante peculiar. Quem navega pelas redes sociais certamente já viu vídeos mostrando verdadeiras insanidades do trânsito russo: batidas incríveis, atropelamentos improváveis e brigas com uso das mais variadas armas viram cenas de humor para milhões de internautas. Compilamos abaixo alguns deles, para que o leitor possa ter uma ideia do que estamos falando:

Em meio a esse cenário, a presença massiva de câmeras nos automóveis não é à toa: faz parte de uma estratégia para provar inocência nos mais bizarros julgamentos por acidentes [e também para se prevenir de tentativas de extorsão por parte de policiais]. E, a julgar por esses vídeos, imagina-se um verdadeiro caos nas ruas. Por tudo isso, será que é perigoso se aventurar naquelas terras pilotando uma motocicleta?

O economista João Batista de Lima, de Matelândia (PR), cruzou a Rússia em 2009 sobre uma BMW R 1150 GS. Ele afirmou que, para se adaptar a uma cultura tão diferente, é preciso entender que os costumes russos são moldados pela dureza do clima, imensidão do território e pela força ainda presente do comunismo, que dominou o país por quase um século. "As pessoas são desconfiadas, mas, quando você rompe essa barreira, tornam-se amáveis e gostam de uma festa", relatou. 

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"Selfie" de Edgard Caitait como passageiro de um caminhão na Rússia. Brasileiro estranhou presença de veículos com volante invertido, já que todas as vias são de mão francesa (igual no Brasil)
Isso não exime o visitante de tomar cuidado com o "jeito do russo de dirigir", alertou o motociclista, que já percorreu 40 países praticando o mototurismo. Em partes, essa postura está ligada a outra tradição: o gosto pela vodca. Lima sofreu na pele os efeitos do casamento entre bebida e direção quando cruzava a Sibéria, ao ser abalroado por um motorista alcoolizado. Por sorte, não se machucou, mas a pancada na traseira de sua moto foi bem forte. 

Além disso, a distância entre as grandes cidades geralmente é de mais de 1.000 quilômetros, percorridos quase sempre por meio de estradas com retas longas, sonolentas e mal sinalizadas -- um prato cheio para ultrapassagens perigosas e colisões.

CONTRASTES
Do lado ocidental da Rússia, o trânsito é muito mais frenético e até agressivo para os padrões brasileiros -- mesmo para quem está habituado ao tráfego de metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro. Ver uma moto na rua não é tão comum quanto por aqui, porque o inverno rigoroso inviabiliza o uso de veículos de duas rodas durante boa parte do ano.

Por isso, segundo Edgard Catait, outro turista brasileiro que conheceu a Rússia em 2011, no caso tendo como companheira uma Yamaha XT 660, os motociclistas precisam aprender a se "impor" em meio a carros e caminhões. "Se você hesita um pouco, os motoristas jogam mesmo o carro para cima e veem isso como algo normal", contou. 
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Inverno rigoroso prejudica qualidade do asfalto. Manutenção tem de ser constante
 À medida em que se desloca para o leste do país, os postos de combustível mais modernos dão lugar a estabelecimentos bem antigos, munidos apenas de uma bomba de combustível e caixa -- este fortemente protegido por grades e segurança armado. Se quiser ir ao banheiro, é bom estar preparado para voltar ao século 19, usando aquelas casinhas de madeira com uma latrina no chão. 

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Este é o padrão dos banheiros nos postos de combustíveis do leste russo
Outra peculiaridade é que muitos veículos que circulam na Rússia -- especialmente caminhões -- foram comprados do vizinho Japão e estão adaptados à mão inglesa (volante à direita, tráfego pela esquerda), mesmo com o sentido da direção russa sendo pela direita (como no Brasil). "Imagine agora um motorista de caminhão, posicionado no banco do lado direito, invadindo a pista contrária para fazer uma ultrapassagem sem saber se vem carro no sentido oposto". relatou Catait, que precisou andar 500 quilômetros como passageiro de um desses caminhões porque sua XT 660 ficou sem bateria no meio da estrada. 

Não há exagero algum em dizer que os russos são muito reservados. Alguns prédios públicos chegam a proibir fotografias, sob pena de detenção. Isso aconteceu com João Batista Lima: seu companheiro de viagem captou imagens de uma usina hidrelétrica, entre as cidades de Kazan e Ufa, sem saber da proibição. Quando passaram pela cidade mais próxima, ambos foram parados pela polícia, tiveram seus passaportes confiscados e acabaram presos.

"Eles não foram violentos conosco, mas eu não conseguia entender o que estava acontecendo, pois não falo russo e eles também não falam inglês", relembrou. Foi necessária a chegada de um intérprete para que o mal-entendido fosse esclarecido. Assinados alguns documentos (que até hoje o empresário não sabe para que serviam), os turistas receberam os passaportes de volta e seguiram viagem.

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Lago Baikal, no sul da Sibéria: lindas paisagens, novos amigos e muita história para contar foram os itens que os aventureiros trouxeram de volta na bagagem
Por tudo isso, o turista que pretende se aventurar naquele "país-continente" pilotando uma moto tem de estar aberto a uma série de adaptações e, acima de tudo, ter calma para lidar com imprevistos. Mas, para João Batista Lima, a experiência vale a pena. "Eles falam alto, são espontâneos e gostam de uma festa, então acho que a Copa de 2018 será um sucesso", previu o empresário, que voltou ao Brasil com a bagagem cheia de novos amigos e boas histórias para contar.

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