Marcas de luxo agora querem vender motos à classe média do Brasil

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

Harley apostou na linha Street em Milão
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No Brasil, as marcas Harley-Davidson, BMW, Triumph e KTM estão ligadas à ideia de motos caras e sofisticadas. E ao ideal de prazer sobre duas rodas destinado a motociclistas que podem investir pelo menos R$ 30 mil para colocar um modelo na garagem. São chamadas de marcas "premium" -- ou de luxo, mesmo -- e além das próprias motos, oferecem status e serviços diferenciados. Mas algo está para mudar.

Quem acompanhou a cobertura de UOL Carros e Infomoto para o Salão de Motos de Milão 2013, sabe que a americana Harley-Davidson e a inglesa Triumph desceram do salto e já estão de olho no dinheiro suado do consumidor de menor poder aquisitivo.

PRIMO POBRE
É o caso da linha Harley-Davidson Street, por exemplo, equipada com motores de 500 e 750 cc. Para os puristas, fãs a nova motorização -- o menor usa refrigeração a água -- pode até soar como ofensa com sua proposta "primo pobre" em relação a modelos como a Fat Boy ou Electra Glide. Os modelos serão fabricados na Índia e nos Estados Unidos, mas com certeza chegarão ao Brasil.

Quem esteve perto dessas motos diz que o acabamento não é dos melhores: rebarbas, algumas falhas nos encaixes e peças de qualidade inferior sugerem que o modelo terá mesmo preço baixo. Mas também é preciso notar que as unidades vistas eram "pré-série", o que pode justificar a má impressão. Uma coisa é certa: servirá como isca para novos consumidores.

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    Por ora é projeção, mas mini-Triumph sairá do papel e promete custar menos de R$ 20 mil

NOVA VIZINHANÇA
Outra novidade ainda mais interessante vem da Triumph. A marca mostrou, também em Milão, a projeção de como pretende atrair consumidores com talão de cheque menos polpudo. Trata-se de uma mini-esportiva de 250 cc com motor de um cilindro.

Executivos da marca no Brasil informaram que o modelo deve estrear até o final de 2015 com preço na faixa de R$ 18 mil. A marca terá até um novo conceito de concessionária destinada exclusivamente ao novo consumidor. É possível até que longe das lojas mais badaladas onde a Triumph se hospeda atualmente -- como é o caso da sofisticada concessionária da avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo (SP).

Já a austríaca KTM, também conhecida por motos com formas radicas e preço alto, resolveu descer do altar para agradar aos mortais que moram abaixo da linha do Equador. Na Colômbia, por exemplo, a fun-bike Duke 200 está disponível em concessionárias da marca. O modelo esteve prestes a voltar ao Brasil -- a marca chegou a anunciar a fabricação em Manaus (AM) e a intenção de comercializar 3.000 unidades  --, mas a estratégia não vingou por conta da parceria malfadada com o Grupo Izzo, que a representava até 2010.

Mini-esportiva da KTM e mais destaques de Milão
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De Milão, porém, chegam novas informações sobre a volta oficial da KTM. Com isso teríamos mais uma marca de luxo olhando para a parte inferior de pirâmide. Alias, a KTM também lançou mini-esportivas no evento, com modelos de 125, 200 e 390 cc.

A enxurrada de novidades faz lembrar a campanha da Mercedes-Benz quando trouxe ao Brasil o modelo Classe A, na virada dos anos 1990, um carro genérico a meu ver, mas que tinha a estrela de três pontas no capô. "Você de Mercedes" era o mote da campanha publicidade veiculada em 1999 para mostrar ao consumidor as vantagens de ter (e poder comprar a prazo) um carro de marca premium. Infelizmente, muita gente que investiu nesse modelo ficou insatisfeita. Algo semelhante pode ocorrer com o setor de duas rodas?

BMW G 650 GS CONTRA TÉNÉRÉ
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FREGUESIA DIFERENTE
A BMW Motorrad também deverá ampliar seu leque para ter o que oferecer a consumidores com conta bancária mais magra. A marca alemã se associou à indiana TVS, o que leva a crer que em breve teremos modelos da marca a preços mais acessíveis.

A julgar pelo entusiasmo mostrado em Milão e a experiência relatada pelo consumidor, a fórmula poderá dar certo no Brasil. Afinal, nada melhor que entrar em uma concessionária e sentir-se importante, ainda que de lá se saia com uma moto diferente dos modelos topo de gama.

NOVO PERFIL

  • Cícero Lima/Infomoto

    Fernando Amaral fez as contas de manutenção e seguro antes de comprar a primeira BMW.

VALE A PENA?
Fernando Amaral, 47 anos, é um amigo e também motociclista experiente, que acabou de comprar sua primeira BMW: a G 650 GS é a versão mais barata da marca, avaliada em R$ 30 mil. Para Amaral, a experiência na concessionária, desde a compra até a entrega da moto, fez toda a diferença. "Lá tem café, suco, wi-fi e até uma área para as crianças", enumerou.

Fora isso, também o impressionou o atendimento e diferenciais oferecidos, como a capa para cobrir a moto "com um logo enorme da BMW" e até mochila para transportar o manual "que tem capa de couro".

Antes que alguém rotule o motociclista como "coxinha" -- no caso, alguém quem não entende do assunto, mas gosta de fazer pose -- é bom conhecer um pouco do seu passado. Amaral já teve Yamaha XT 660 e Ténéré, Honda Falcon e algumas outras aventureiras. Por sua garagem, passou até uma Honda CB 750, ano 1969, por ele restaurada.

Apresentações feitas, Amaral pode ser identificado como exemplo do público que as marcas de luxo querem alcançar a partir de agora. Conhecedor, o motociclista sabe que o custo da manutenção de uma moto premium é mais elevado -- "A pastilha de freio da BMW é 20% mais cara do que a da Yamaha XT 660 R" -- e não foi pego desprevenido.

Amaral já havia cotado também o seguro e optou pela BMW.  "Com a Yamaha pagaria R$ 4.500 na BMW ficou em R$ 1.200". Contas feitas, a escolha ficou justificada.

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