Rigor na formação de condutores e vontade política podem reduzir acidentes

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

Veja fotos do 7º Encontro Ibero-americano de Formação de Condutores em Fortaleza
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Você viajaria num avião moderno, rumo ao aeroporto mais seguro do mundo, com um piloto inexperiente no comando?

É com este questionamento que Luis Montoro, professor da Universidade de Valência (Espanha), alerta seus alunos para a necessidade de bastante treinamento de motoristas e motociclistas, ainda na auto ou moto-escola.

O argumento do espanhol é confirmado pela redução de quase 60% no número de mortos por acidentes em seu país. Segundo Montoro, não bastam estradas bem planejadas e veículos seguros se o motorista/piloto não tiver um bom aprendizado. "Não temos que ensinar apenas habilidade, temos de ensinr a se comportar melhor em meio ao tráfego", disse ele durante o 7º Encontro Ibero-americano de Formação de Condutores, que aconteceu entre 12 e 14 deste mês, em Fortaleza (CE), por iniciativa da Feneauto (Federação Nacional das Auto-escolas).

MUDANÇAS
Na virada do século, as estradas da Espanha eram palco de uma verdadeira carnificina. "Tratamos o problema como uma epidemia, pois o número de mortes era assustador". Em 2000, 5.900 pessoas morreram. Em 2012, foram menos de 2.000 -- e ainda assim os espanhóis julgam que não há o que comemorar.

Segundo Maria Del Carmem Giran, do Departamento de Gestão de Trânsito da Espanha, a queda no índice de mortalidade foi obtida graças a uma estratégia baseada nos bons resultados obtidos por França e Alemanha, e envolvendo cidadãos, governo, órgãos de trânsito e auto-escolas responsáveis pelo treinamento dos novos motoristas/motociclistas.

Os instrutores aprenderam a transmitir informações que vão além de ensinar a pilotar ou dirigir. Eles alertam, por exemplo, que o álcool é um agente anticoagulante que dilata os vasos sanguíneos; em caso de acidente, as chances de hemorragia são maiores para quem bebeu antes.

Para a especialista, transmitir esse tipo de informação ao aluno de forma clara e direta ajuda a criar uma maior consciência do risco que ele pode correr. "Algo raro nos jovens", acrescenta.

A ideia é que o aluno de direção/pilotagem entenda que dirigir embriagado não é apenas de uma transgressão à lei, mas um duplo risco à vida: pode causar um acidente e piorar as consequências deste. 

NA ESPANHA NÃO TEM MOLEZA

  • Minuciosos exercícios de pilotagem para motociclistas são realizados em área fechada

  • Ao encarar o trânsito, motociclista é monitorado por instrutor, que o segue num carro

ORIENTAÇÕES
As punições de trânsito também foram revistas e divididas em infrações administrativas e criminais. As administrativas estão associadas às transgressões que "apenas" dificultam o tráfego, enquanto todas as que colocam a vida do motorista e de outros cidadãos em risco foram classificadas como criminais.

Neste último grupo estão passar no farol vermelho, o excesso de velocidade e dirigir sob efeito de álcool. "Não podemos tratar da mesma forma um cidadão que estaciona em local proibido e um motorista que tira racha de madrugada", explica Maria.

Na Espanha, além de investimentos na malha viária e em campanhas educativas, o treinamento dos alunos foi melhorado. Uma das mudanças mais importantes foi o maior rigor na avaliação do candidato a motorista ou motociclista, que realiza provas práticas em recintos fechadosse aprovado, percorre ruas monitorado por um agente do Departamento de Gestão de Trânsito, mostrando se tem capacidade de conviver com o trânsito.

NO BRASIL
Presente ao evento, o deputado Hugo Leal (PSC-RJ), presidente da Frente Parlamentar em Defesa de um Trânsito Seguro, cobrou resultados do Denatran: "Onde estão os números de redução de acidentes das campanhas como o Parada -- Pacto Nacional de Redução de Acidentes?" O parlamentar complementa: "Infelizmente, vejo o Denatran como um órgão que cuida de interesses, e não da redução de acidentes".

Parece que caberá aos donos e instrutores de CFCs (centros de formação de condutores) seguir aos conselhos de Maria Del Carmem Tomás: "Não adianta cobrar ações do governo; é preciso arregaçar as mangas e investir no treinamento de alunos se quiserem diminuir as mortes".

Nisso ela tem razão: segundo dados do Ministério da Saúde, em 2001 cerca de 30 mil pessoas morreram em nossas vias. Dez anos depois, foram 42 mil. Reduzir os acidentes é uma tarefa que os órgãos públicos brasileiros ainda não mostraram capacidade para resolver.

Cícero Lima é especialista em motos (e em pilotá-las com segurança)

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