Cerol é risco de morte para motociclistas, e defender-se custa R$ 10

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

  • Cícero Lima/UOL

    Moto utilizada por um carteiro de São Paulo com não apenas uma, mas duas antenas corta-pipa

    Moto utilizada por um carteiro de São Paulo com não apenas uma, mas duas antenas corta-pipa

O quadro "Meninos soltando pipas", do pintor brasileiro Cândido Portinari, foi arrematado em um leilão por US$ 1,4 milhão. Na obra, o artista reproduz a alegria das crianças enquanto seus singelos brinquedos ganham os céus. A tela foi pintada em 1941. Hoje, mais de 70 anos depois, a brincadeira retratada em sua obra continua com grande apelo entre as crianças -- mas perdeu muito de sua inocência.

Que diga o piloto de um paramotor (paraquedas com motor fixado nas costas), que sofreu um acidente inusitado em Araçatuba (SP), em janeiro último: algumas cordas do seu equipamento foram cortadas e ele despencou de 10 metros de altura. Por sorte, teve apenas ferimentos leves. Esse acidente, tão incomum, é um exemplo dos danos que podem ser provocados pelas linhas de pipa com (e mesmo sem) cerol. Nesse rol de vítimas, podemos incluir (além das aves) pedestres, ciclistas, skatistas, paraquedistas -- e, claro, motociclistas.

Em fins de semana e época de férias escolares, os acidentes aumentam. Crianças, adolescentes e até muitos marmanjos têm na pipa (também chamadas de raia, quadrado, maranhão, papagaio) uma atividade barata e divertida. Para aumentar a emoção, a criançada pratica uma espécie de "batalha aérea" -- mas aí a brincadeira perde a graça e começa o perigo.

Para vencer disputa, é usado o temido cerol, mistura de cola e vidro moído aplicada à linha. Existem também outros produtos até mais eficientes, como a linha chilena, produto industrializado que é proibido no Brasil, mas pode ser encontrado em lojinhas da periferia, onde também são vendidas pipas prontas.

Na disputa nos ares, a ideia é cortar a linha da outra pipa. Alheias ao perigo, discute-se livremente em redes sociais qual o melhor método para tornar a linha ainda mais afiada (e perigosa).

AS MARCAS DO CEROL

  • Reprodução/http://www.cerol.com.br/

    Casaco de motociclista com corte no braço

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    Vítima do cerol com ferimento no pescoço

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    Capacete é cortado por cerol como se fosse papel

Pedestres e quem usa veículos abertos, como bicicletas e motos, estão expostos ao risco de topar com a linha impregnada de cerol (ou cortante, como também é conhecido) atravessada na rua, e não percebê-la a tempo. Foi o caso do ciclista Antônio Gomes, que teve uma veia cortada quando voltava para casa em Americanópolis, bairro da zona sul de São Paulo. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu.

Entre as principais vítimas do produto estão os motociclistas, que podem ser surpreendidos até mesmo na estrada. Nela, devido à velocidade, é praticamente impossível perceber que há uma linha no caminho da moto. E poucos têm sorte como o comerciante Artur Cané, 55 anos, que sofreu ferimentos no supercílio e levou 17 pontos no rosto.

"Estava na rodovia Fernão Dias, perto de Atibaia, numa área deserta. Apesar do capacete fechado, a linha cortou a viseira e meu rosto... Foi tão rápido que tive apenas tempo de parar e sentir o sangue escorrendo", narra o experiente motociclista, que na época viajava com uma BMW R 1100 GS.

O garupa também está exposto. A dona-de-casa Zenilda Belo de Souza, 47 anos, estava utilizando o serviço de um mototáxi em Brasília (DF), e sofreu um corte no pescoço devido a uma linha com cerol. O piloto conseguiu baixar a cabeça, mas Zenilda foi pega de surpresa e morreu no local.

Outros casos não faltam. Basta entrar no site da campanha Cerol Não. Lá também é possível entender os riscos de usar o cerol e ver os muitos acidentes que ele provoca (há cenas fortes).

PROTEÇÃO
Existem alguns equipamentos que o motociclista pode usar para se prevenir. Entre eles, o mais eficiente é, sem dúvida, a antena corta-pipa. O acessório tem a base fixada ao guidão e, esticado, impede que a linha atinja o piloto e a corta com uma pequena lâmina na extremidade.

Apesar de barato (custa a partir de R$ 10), o equipamento não é unanimidade entre os motociclistas. Muitos julgam que a moto "fica feia". Mas ele é obrigatório para motofretistas e mototaxistas, profissionais mais expostos ao cerol. Segundo a Resolução 356 do Contran, estes devem equipar suas motos com as antenas corta-pipa, entre outras exigências -- que, se tivessem sido cumpridas, teriam salvado a vida da dona-de-casa Zenilda.

Os fabricantes de equipamentos buscam soluções mais discretas e elegantes para o motociclista. Uma delas é o protetor de pescoço anticerol, que traz reforço de cabos de aço na sua parte interna para impedir a penetração da linha.

Caso o piloto não conte com essas proteções e tenha de atravessar uma área povoada, principalmente nas entradas e saídas das cidades (onde é mais comum crianças brincando fora de casa), é possível improvisar e usar um caminhão ou picape como escudo.

Para tanto, é preciso rodar ao lado ou atrás do veículo (mantendo uma distância segura, claro). Desse modo, se houver uma linha atravessada na rua ou estrada o motociclista será protegido, pois o veículo que vai à frente arrasta a linha. Mas a estratégia não dá a proteção garantida pela antena corta-pipa -- um equipamento indispensável aos motociclistas e que, infelizmente, pedestres, ciclistas, paraquedistas (e até as aves) não têm à disposição.

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    PM fiscaliza uso de cerol em pipas no interior de SP: cuidado ao pilotar em entrada de cidades

Cícero Lima foi diretor de redação da revista Duas Rodas

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