Elite bomba venda de motos mais caras em busca da satisfação social

Roberto Agresti
Colunista do UOL

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    Cresce no Brasil o número de pessoas que enxergam na moto um meio de socialização

    Cresce no Brasil o número de pessoas que enxergam na moto um meio de socialização

A maior fatia do bolo de dois milhões de motos vendidas anualmente no Brasil pertence aos ditos modelos "utilitários", com motores de 50cc a 150 cc. Segundo a associação dos fabricantes, a Abraciclo, o ano de 2012 está sendo malvado com este segmento. Possivelmente não se repetirá o desempenho de 2011 por conta da maior dificuldade na obtenção de crédito, justificada por um crescente índice de inadimplência. A queda nas vendas nestes primeiros cinco meses ultrapassa pesados 13% no comparativo com o ano anterior.

Mas, se do lado das utilitárias as coisas vão mal, ao analisar as vendas de duas das principais marcas do "andar de cima", as que produzem motos para clientes que buscam algo mais do que um mero meio de transporte, revela-se uma realidade bem diferente: a alemã BMW e a norte-americana Harley-Davidson, ambas com fábrica em Manaus (AM), comemoram um 2012 de crescimento em nosso país. Em suas lojas, os modelos mais básicos partem de R$ 30 mil, enquanto as mais elaboradas beiram os R$ 100 mil. E, mesmo com tais valores, recordes de vendas estão sendo batidos.

MOTONOTAS!

A HONDA XL 700V TRANSALP teve seu preço reduzido: menos R$ 2 mil reais na versão de entrada (agora R$ 29.900) e R$ 3 mil na versão com freios ABS (R$ 31.990). Há quem diga que isso faz parte do "preparo do terreno" para a chegada de novidades anunciadas da marca.
SEIS NOVOS MODELOS: é o que a Honda prometeu para 2012, além de seis outras renovações de motos já constantes de sua linha no Brasil. A mais esperada seria uma moto com um moderno motor bicilindro -- ou, na prática, "metade" do motor quatro-cilindros do Honda Fit fabricado em Sumaré (SP).
HONDA NC 700S é a referida moto que poderia chegar em breve na faixa dos R$ 23/25 mil reais, para "destroçar" as pretensões de uma moto de categoria semelhante recém introduzida no nosso mercado, a Kawasaki ER-6n, posicionada na faixa dos R$ 26 mil reais (R$ 29 mil com freios ABS).
O AUMENTO DO IPI, que mirou torpedear as motos chinesas de baixa cilindrada, acertou também uma das novidades recém-lançadas da Honda, a esportiva CBR 250R, produzida na Tailândia. Porém, isso pode ser benéfico e precipitar a cogitada decisão de fabricá-la aqui, deixando-a mais barata. Contribuiria para tal o fato de que seu motor é o mesmo da nova trail da marca, a CRF 250L, lançada recentemente no Japão e prometidíssima para o mercado brasileiro.

SOCIALIZAÇÃO EM DUAS RODAS
De acordo com os dados divulgados pela Fenabrave, a soma dos emplacamentos destas duas marcas neste ano supera em cerca de 30% a média anual obtida em 2011, o que significa que mais de mil motos da BMW e Harley chegam por mês às nossas ruas, atualmente. Tal gênero de moto tem clientes que pouco dependem do bom humor do gerente do banco para fechar negócio e tampouco estão interessados na motocicleta como meio de locomoção. Para eles o lazer e a satisfação pessoal decorrente da compra de uma moto são os pontos principais, assim como a ampliação de possibilidades de relacionamento.

A busca por comunicação nas redes sociais é traço marcante de nosso tempo, e equivalente é a agradável sensação de pertencer a um grupo, confraria ou coisa que o valha. Boa parte desses sorridentes motociclistas de final de semana, profissionais bem sucedidos, encontraram na moto sua válvula de escape, ticket de entrada para socialização que independe de fatores profissionais.

Os clichês cansativamente aplicados ao uso da motocicleta -- sensação de liberdade, vento no rosto e transgressão -- certamente não são os elementos motivadores desse grupo. Mais do que estereótipos baratos, o que motiva esses novos donos de BMW, Harley e outras motos admiradas seja pelo desempenho, tecnologia ou estética superior é o desfrutar do veículo e em companhia, cercado de amigos motociclistas.

Há por todo Brasil locais de reunião, points que nos finais de semana atraem tais novos embaixadores da motocicleta, que longe de serem reedições tardias de bandos como os do filme "O Selvagem" de Marlon Brando ou inadequadas cópias tropicais dos californianos Hells Angels, apenas elegeram a moto como elo de socialização e diversão.

E entre eles surgem férteis subdivisões de acordo com o estilo de suas motos: há a tribo das custom e seus cromados, os devoradores de quilômetros das grã-turismo e maxitrail, os "performance lovers" das superesportivas e aquele que talvez seja o primeiro dos grupos a ter surgido no país, os fãs do fora-de-estrada, ou "treieros", que com suas motos especiais para a prática de enduro ou trail escolhem as trilhas como alvo de seu convívio motociclista.

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    Grupos de passeio -- urbanos, estradeiros ou fora-de-estrada -- têm se tornado rotina para motociclistas que buscam lazer e satisfação pessoal e social.

MOTO-CLUBES
Alguns destes grupos assumem características de confraria oficializada através de moto-clubes e associações. Exemplo máximo atualmente é o HOG (Harley-Davidson Owners Group, ou simplesmente grupos de donos de Harley) ao qual automaticamente se integram os que compram uma moto da marca, ganhando direito a frequentar os passeios organizados pela entidade. É frequente o relato de senhores de meia idade (e também senhoras, claro) que confessam ter escolhido a moto motivados pelo fascínio do veículo e socialização decorrente. Também comum é verificar o retorno de quem usou a motocicleta na juventude e dela se afastou por razões múltiplas, mas que agora, com melhor possibilidade financeira, faz as pazes com o guidão.

Válida terapia anti-estresse, este uso da moto revela uma faceta humanizada e muito positiva do veículo cuja imagem sofre as consequências negativas da má utilização e decorrente alto índice de acidentes, aspecto já comentado neste espaço recentemente.

Poucos veículos despertam tamanha paixão como a motocicleta. Atacada por alguns, é irracionalmente apontada como culpada de males, como se não dependesse da ação humana para ser usada. Porém, felizmente os que nela veem um instrumento ideal de lazer e socialização estão cada vez mais numerosos.



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