Honda mira na falta de motos entre R$ 15 mil e R$ 25 mil

Roberto Agresti
Especial para o UOL

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    Honda NC700 X é um dos três produtos da mesma plataforma da marca japonesa: ela é a "aventureira", enquanto a S tem pegada mais estradeira; o preço no Brasil ficaria entre R$ 22 mil e R$ 24 mil, menos que o scooter Integra, com o mesmo motor bicilíndrico de 700 cc

    Honda NC700 X é um dos três produtos da mesma plataforma da marca japonesa: ela é a "aventureira", enquanto a S tem pegada mais estradeira; o preço no Brasil ficaria entre R$ 22 mil e R$ 24 mil, menos que o scooter Integra, com o mesmo motor bicilíndrico de 700 cc

Momentos difíceis favorecem mudanças e estimulam a inventividade humana. O chacoalhão na economia mundial do final de 2008 repercutiu fortemente em todos setores, inclusive na indústria da motocicleta. Gigantes como Honda e  Yamaha acusaram o golpe; as vendas despencaram nos EUA e Europa, mercados consumidores de motos grandes, geradoras de alta lucratividade. Sem dinheiro sobrando e com a perspectiva de recuperação do poder aquisitivo reduzida à condição de miragem, motos caras não foram exatamente os objetos mais procurados pelos habitantes do 1º mundo nos últimos tempos.

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    Scooter Integra, produto mais caro, tem como público-alvo o consumidor europeu

Já no Brasil foi diferente. Pode-se dizer que, em vez de tsunami, houve mesmo é "marolinha": do crescimento vertiginoso do segmento -- 120% de 2004 até 2008 -- passamos em 2009 a uma queda de menos de 20% em relação ao ano anterior. Mas já em 2011 o crescimento voltou ao nosso "mercadão" de mais de 2 milhões de unidades/ano, o 5º maior do planeta, com recorde de motos emplacadas.

O porém é que mais de 80% destas motos são as pequenas utilitárias de 125 cc ou 150 cc, cuja margem de lucro é estreita, fazendo o ganho vir do volume.

Como dissemos no início, a crise mundial está provocando mudança -- e isso é bom tanto para o consolidado, mas abalado mercado europeu, quanto para o emergente Brasil, em franca evolução. Nesse contexto, uma inovadora família de veículos de duas rodas proposta pela Honda no final de 2011 pode vir a ser um santo remédio, a tábua de salvação para o outrora rico 1º mundo; e ferramenta de necessária expansão e qualificação para o segmento em nosso país.

ACELERE MAIS!

ISSAO MIZOGUCHI é, apesar do nome, o 1º brasileiro nato a assumir a presidência da Moto Honda da Amazônia, fato que ocorrerá em 1º de abril. Desde 1985 na Honda, engenheiro formado pela FEI de São Bernardo do Campo, Issao foi homem de "chão de fábrica" em Manaus durante a maior parte de sua carreira, e é tido como incansável e talentoso tocador de projetos. Desde 2009 atuou também na área de automóveis da empresa, trazendo para a fábrica de Sumaré, no interior paulista, as soluções de sucesso implantadas no pólo industrial de Manaus. Será sob sua gestão, e certamente por sua vontade, que novidades como as NC 700 poderão chegar ao nosso mercado.

KAWASAKI ER-6n é a moto à venda no Brasil atualmente que mais se assemelha às Honda NC 700X ou S. Como motor bicilindro paralelo, chassi de aço e com preço abaixo dos R$ 25 mil. Montada em Manaus, é produto bem acertado e de sucesso mundial, mas no Brasil sofre por conta da ainda incipiente rede de concessionárias Kawasaki no Brasil, limitada a menos de 50 lojas atualmente.

KASINSKI COMET 650R (leia reportagem) é outra moto que se coloca na faixa de preço abaixo dos R$ 25 mil. Dotada também de motor bicilindrico, mas com arquitetura em V, tem a seu favor os ares de moto esportiva que não são confirmados pela performance, em muito prejudicada pelo alto peso geral do conjunto. Se vale de tecnologia ligeiramente datada, da marca coreana Hyosung.

HONDA INTEGRA O destaque do modelo é sua transmissão DCT (Dual Clutch Transmission, ou transmissão de embreagem dupla). Trata-se de tecnologia já presente na indústria automobilística (notadamente em veículos do Grupo VW tais como os Audi ou Porsche) no qual as engrenagens do câmbio estão divididas em dois eixos. As marchas ímpares contam com uma das embreagens e as marchas pares com a outra. O excelente resultado, que conta com boa dose de gestão eletrônica, são engates automáticos ou manuais (há opção de se fazer a seleção das marchas em teclas no punho esquerdo do guidão) rápidos e praticamente imperceptíveis. Outra vantagem é que, diferentemente dos câmbios automáticos convencionais (CVT ou epicíclicos), no DCT há menor perda de energia o que colabora para a economia de combustível. No scooter Honda Integra tal câmbio é de série enquanto que nas motos NC 700X ou NC 700S o DCT é opcional.

S ou X? O que difere nessas Honda? A S é estradeira, com menor curso de suspensão e menos arrojo estético. A X é, apesar de se valer de rodas de mesma medida da "S", aro 17 na frente e atrás, tem suspensões mais afeitas a excursões em fora de estrada leve. Ambas contam com interessantes aspectos práticos, tais como um portacapacete situado onde estaria o tanque em uma moto convencional. Por conta da arquitetura do motor, com cilindros inclinados fortemente à frente (62 graus) o reservatório do combustível pode estar situado sob o banco.

Líder mundial e nº 1 também no Brasil, a Honda sabe que, mesmo sem a opulência de outros tempos, o europeu não abre mão do transporte em duas rodas. Sabe também que, por conta da crise, muitos dos que até ontem se locomoviam em automóveis podem deixá-los na garagem caso vislumbrem algo de verdadeiramente novo e, sobretudo, ainda mais econômico do que um carro pequeno.

Entre nós a questão é outra. É hora de preencher todas as lacunas com uma completa gama de modelos, e entre suas armas a Honda tem a maior rede de concessionárias do Brasil -- mais de 780. Mas há um buraco na linha da marca e também na das concorrentes. Se quiser gastar até R$ 15 mil, o consumidor se defronta com três dezenas de modelos de sete diferentes fabricantes.

Já na faixa que vai dos R$ 15 mil a R$ 25 mil há penúria. Imaginando que a natural evolução do motociclista é iniciar com pequenas 125 cc e 150 cc e, se possível, logo passar para as 250 cc (ainda abaixo de R$ 15 mil), é no passo seguinte -- o terceiro degrau na escada -- que faltam opções. Curioso notar que, no quarto degrau, o das motos que custam de R$ 25 mil a R$ 35 mil, a fartura de modelos volta.

Enfim, o motociclista que queira algo mais consistente, acima dos 250 cc mas abaixo dos R$ 25 mil, está mal servido.

UMA PLATAFORMA, VÁRIAS MOTOS
A citada nova família de motos da Honda é baseada num simples, mas tecnicamente evoluído motor de dois cilindros de 700 cc. Com este engenho de pouco mais de 50 cavalos de potência a Honda criou dois modelos de motos, as NC 700 X e S, e um scooter, o Integra, usando o conceito de plataformas tão caro à  indústria automobilística -- ou seja, uma mesma base e três produtos diferentes.

Para nós, brasileiros, apostar nestas Honda NC como primeiras representantes de um novo conceito (o NC da sigla alude exatamente a "New Concept") a aportar por aqui é mais do que fácil: há quem diga que tais motos estrearão no Brasil em prazo exíguo, talvez ainda este ano. Capazes de consumo mínimo, cerca de 27 km/litro de acordo com testes em circuito padrão (norma WMTC, World Motorcycle Test Cycle), resultam das pesquisas feitas pela Honda que indicam que 90% de seus clientes jamais superam os 6.000 rpm e os 140 km/h de velocidade máxima mesmo dispondo de bólidos de mais de 170 cv com motores tetracilíndricos que giram a 15.000 rpm.

Ou seja, o "novo conceito" é uma espécie de downsizing de performance, onde a alta tecnologia que oferecia desempenho inútil se volta para a economia de combustível e praticidade de uso.

Tanto na versão "adventure" que é a NC 700X [já abordada em UOL Carros em reportagem da Infomoto], quanto na estradeira, a NC 700S, estas Honda acertariam bons alvos, cativando motociclistas antigos, orfãos de modelos de sucesso entre nós que hoje não tem paralelo -- tais como as saudosas NX4 Falcon e CB 500 --, bem como poderiam atrair gente decepcionada com o baixo status e alto custo de exercício dos carros de entrada de nosso mercado.

Já o terceiro integrante da família, o scooter Integra (que, além do motor, compartilha também o chassi com as NC) atuaria como uma "cerejinha sobre o sorvete" se colocado em nosso mercado. Por ora é muito mais a cara do cliente europeu do que do brasileiro, e custaria bem mais do que os estimados R$ 22 mil a R$ 24 mil das NC -- mas, como a Honda brasileira tem demonstrado recentemente não mais querer deixar nada de graça para os concorrentes, é bem capaz que seja importado e não montado em Manaus, como serão as novas NC 700.

Enfim, tais novidades são produtos que mostram um novo caminho feito de simplicidade mecânica aliada à boa performance e excelente design.


Roberto Agresti é editor da Revista da Moto!



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