Coluna

Alta Roda

Brasil volta a ser o "país do futuro" para fabricantes de carro

Murilo Góes/UOL
Executivos preveem que período difícil vivido pelo setor automotivo deve perdurar em 2016, mas sustentam investimentos visando o médio e o longo prazo imagem: Murilo Góes/UOL
Divulgação
Alta Roda

Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Fernando Calmon

Colunista do UOL

Frases como essas não costumam partir de altos dirigentes da indústria automobilística sobre o cenário desolador atual: “O Brasil precisa de um plano, como uma empresa. Não temos um plano”; “A crise está ligada fundamentalmente à questão política, uma doença degenerativa, uma cirrose, que corrói a economia”; “Brasil precisa de um ajuste ético e político. Enquanto isso não acontecer, a economia e o mercado automotivo não voltarão a crescer.”

Até parece orquestração, mas não foi. No Congresso AutoData Perspectivas 2016, semana passada, em São Paulo (SP), parece que todos reverberaram, ao mesmo tempo, o clima de mal-estar com os rumos de curto e médio prazo do país desde o final do ano passado. Na realidade, as fabricantes do setor muitas vezes “apanham” caladas, mostram-se sempre na defensiva, quer as críticas sejam pertinentes ou impertinentes, justas ou exageradas. Essa nova postura só agora brotou publicamente, em tom de desabafo.

A explicação óbvia vem daquela frase imortal do jornalista Joelmir Beting. Ele dizia que o órgão mais sensível do ser humano é o bolso. Ninguém ignora que a indústria automobilística ganhou muito dinheiro com o crescimento quase explosivo das vendas internas entre 2004 e 2013, alimentadas por demanda reprimida (1999 a 2003), crédito fácil e descontrolado, aumento do poder aquisitivo dos compradores e estímulos fiscais em momentos difíceis. Geraram-se lucros remetidos às matrizes.

O cenário de hoje, exatamente o oposto, atacou o bolso. Os prejuízos começaram já no ano passado e no momento as matrizes estão socorrendo as filiais com empréstimos até para fechar as contas no fim do mês. Afinal, salários na indústria acima da inflação e preços dos carros corrigidos por percentual inferior não dão liga. Essa fase acabou e aumentos reais pioram tudo.

Nenhum acionista gosta de saber que perde dinheiro onde antes ganhava, e que está agora “devolvendo” parte do que havia embolsado. São da regra econômica os ciclos bons e ruins, mas importa a tendência apontar para cima.

Também se ouviram vozes ainda mais pessimistas. O início da tímida recuperação poderia ficar para 2017 e não começar no último trimestre de 2016. Parece haver um desconhecido porão no fundo do poço. Somando-se veículos leves e pesados, as vendas talvez não cheguem a 2,1 milhões de unidades em 2016, ou 16% menos que os prováveis 2,5 milhões deste ano.

No rumo contrário, o instituto Ipsos Brasil disse ter detectado em pesquisa que, nos últimos meses, cresceu a intenção de compra de carros novos pelos consumidores. Infelizmente, isso não foi confirmado pelos bancos. A associação das instituições vinculadas aos fabricantes (ANEF) reafirmou a procura menor por financiamentos, independentemente da maior seletividade na aprovação de cadastros de interessados.

Em meio a interpretações e previsões de alguma forma divergentes, pelo menos há um consenso positivo. Nenhum fabricante admitiu cancelar investimentos. Eles estão mantidos, certamente a um ritmo menor, mas a ameaça de desinvestimento, como já ocorrida no passado, parece descartada. Voltar à condição de país do futuro é algo bem desconfortável, mas é o consolo que restou. 

Divulgação
Range Rover Evoque é modelo mais recente a ser anunciado como futuro nacional imagem: Divulgação

Roda Viva

  • Embora a Fiat-Chrysler não tenha decidido sobre a produção -- mesmo em regime de montagem de componentes importados (CKD) -- do seu novo sedã médio-compacto Tipo na fábrica de Goiana (PE), as chances de isso ocorrer aumentaram. O carro existe, recuperou o nome Tipo, dos anos 1990, em alguns mercados, mas nem mesmo isso se confirmaria aqui por problemas do passado.
     
  • Exemplo correto de uso de vidros escurecidos no novo monovolume C4 Picasso (segunda geração): da coluna central para trás. Nas janelas dianteiras eles são apenas esverdeados para garantir visibilidade correta. No Brasil a regulamentação do Contran é exatamente essa, mas quase ninguém respeita. Inexiste fiscalização, sendo portanto mais uma lei que "não pegou”.
     
  • Focus Fastback vem alcançando resultados superiores de vendas em relação às gerações anteriores do mesmo sedã, não apenas por esforço de marketing da Ford. Sua dirigibilidade ficou melhor, direção mais precisa e suspensão traseira independente multibraço, com barra estabilizadora, é referência no segmento. Espaço para pernas atrás poderia ser melhor.
     
  • Governo Federal criou incentivos fiscais para veículos puramente elétricos ou híbridos recarregáveis em tomadas, como em outros países. Desculpa anterior era risco de apagão elétrico, mas a procura por esses veículos é tão baixa que soava ridículo. Tarifa de importação cai de 35% para zero (elétricos e hidrogênio), ou para patamar entre 0% e 7% (híbridos), dependendo de sua eficiência.
     
  • Segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, ao analisar dados oficiais, mais de 15% dos mortos no trânsito são idosos (60 anos ou mais), apesar dessa faixa etária corresponder a cerca de 11% da população. Pedestres representam a maior parte das vítimas. Ou seja, motoristas precisam ficar ainda mais atentos às limitações da terceira idade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Topo