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Alta Roda

Fiat também teve seu escândalo -- no Brasil, em 1995 -- e sobreviveu

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Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Fernando Calmon

Colunista do UOL

Clima econômico (e da indústria automotiva em particular), além do desânimo com os rumos políticos do país cobraram seu preço no 24º Congresso SAE Brasil de Tecnologia da Mobilidade. A exposição de fabricantes e fornecedores encolheu, porém 9.000 visitantes comprovam o interesse dos temas debatidos em três dias.

Nos corredores do congresso o assunto mais comentado foi o grave erro cometido pela Volkswagen envolvendo os motores a diesel vendidos no mercado americano. O problema, revelado por um pesquisador de uma universidade dos EUA, desnudou desconfianças pré-existentes em relação à aferição de emissões veiculares. A empresa admitiu que houve fraude, inclusive na Europa, onde a penetração desse tipo de motor atinge, na média, cerca de 50% dos veículos leves.

O presidente executivo do Grupo VW, Martin Winterkorn, se viu obrigado a renunciar e a empresa admitiu que 11 milhões de unidades, em um balanço inicial, terão que ser convocados para troca da central de gerenciamento dos motores. O prejuízo potencial é de US$ 18 bilhões, segundo estimativas de especialistas.

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Fiat mascarou emissões e potência do Uno Mille Eletronic... em 1995 imagem: Divulgação

Cair e levantar

Sobre fraude, vale lembrar que em 1995, no "patropi abençoado por Deus", a atual líder do mercado nacional também se enrascou. Recebeu multa simbólica equivalente a US$ 10 por cada um dos 300.000 carros produzidos em três anos -- total equivalente a pouco mais de R$ 12 milhões atuais -- por estar em desacordo com a legislação de emissões da época. E a vida continuou para a Fiat.

Hoje, o cenário está sombrio para o grupo alemão, que terminou o primeiro semestre deste ano como maior fabricante mundial de automóveis e comerciais leves. Mas as três grandes marcas americanas (General Motors, Ford e Fiat-Chrysler) e duas das maiores japonesas (Toyota e Honda), tiveram prejuízos monumentais em casos de acidentes fatais e recalls não executados. E também sobreviveram. 

A Volkswagen admitiu a culpa de imediato e, por isso, o castigo talvez seja amenizado. Mas é cedo para saber dos desdobramentos.

Alternativas ao diesel

Essa coluna sempre teve posição crítica em relação ao uso de diesel em automóveis por se mostrar uma escolha errada, desnecessária e cara em qualquer lugar do mundo. Por que caminhões e carros deveriam usar o mesmo combustível, se os motores de ciclo Otto dão conta do recado em veículos leves, sem as terríveis complicações sobre emissões de óxido de nitrogênio (NOx)? 

Motores diesel consomem menos combustível e, portanto, emitem menos CO2. Mas a que custo?

Há cinco anos ninguém acreditava que um motor a gasolina pudesse emitir menos de 100 g/km de CO2. Pois a própria Volkswagen mostra ser possível com o Golf 1.0 TSI -- trata-se do mesmo motor do up! TSI brasileiro, porém com 10 cv a mais --, que já está à venda na Europa e emite apenas 99 g/km. 

Marcas japonesas há mais de 30 anos vislumbraram o atoleiro que os motores a diesel para veículos leves iriam sofrer em razão do NOx. Toyota optou pelo híbrido a gasolina com ajuda de um pequeno motor elétrico.

Alternativas no Brasil

Produtividade foi bastante discutida e tem muito a avançar no Brasil, apesar de a recente desvalorização cambial ter dado pequeno alívio à baixa competitividade da indústria interna e externamente. Entre as novidades apresentadas destaque para o sistema avançado de injeção de combustível indireta (que ainda está em 60% dos motores atuais de ciclo Otto no mundo), apresentado pela Bosch.

São dois injetores por cilindro e pode ser nacionalizado a preço competitivo. Potencialmente reduz consumo de etanol e gasolina em até 12% em motores aqui produzidos.

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Roda Viva

+ Fiat confirma que sua primeira picape média de quatro portas se chamará mesmo Toro (soa parecido a "touro" e leve referência a Torino, cidade-sede da marca italiana). Empresa identifica o modelo como SUP (Picape Utilitário Esporte, em tradução livre para português). Arquitetura deriva do Jeep Renegade, mas, além da carroceria, tudo é novo do eixo dianteiro para trás.

+ Nada de dormir sobre louros. Hyundai HB20, ano-modelo 2016, recebeu retoques em grade e para-choque dianteiros, luzes diurnas de LED, ar-condicionado digital e nova central multimídia. Agora, câmbios manual e automático têm seis marchas, bem melhor que antes. Novos amortecedores eliminaram ruídos de nascença. Preços vão de R$ 38.995 a R$ 63.535.

+ Alemães que se cuidem com ataque inglês. Jaguar XE desafia Série 3, Classe C e A4 sem poupar munição: tração traseira, mais de 75% da estrutura em alumínio, suspensões muito eficientes, linhas arrojadas, bom espaço interno e porta-malas razoável (455 litros). Além do quatro-cilindros de 240 cv, há um V6 (com compressor) de 340 cv/46 kgfm, com 0 a 100 km/h em 5,1 s. Valores de R$ 169.900 a R$ 299.900.

+ Golf Variant é, de fato, uma station de virar a cabeça ao passar. Pena que esse segmento tenha sido quase totalmente "engolido" pelos crossovers e SUVs. Agora com arquitetura MQB, 109 kg a menos de peso que a anterior Jetta Variant, tem um motor 1,4 turbo que encanta pelo torque de 25,5 kgfm entre 1.500 e 3.500 rpm. Porta-malas enorme: 605 litros.

+ Serviço remoto OnStar chega no Chevrolet Cruze com mais de 20 funções específicas para o mercado brasileiro, em patamar bem superior ao existente por aqui. Conectividade é garantida por chip de celular dedicado e será gratuito nos primeiros 12 meses. Ainda sem definição valores de anuidades, mas seguradoras também gostam desses serviços.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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