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Imposto eleva preço do carro local e abre era do "Prejuízo Brasil"

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Corolla custa entre R$ 81 mil e R$ 138 mil na Argentina, muito mais que no Brasil imagem: Divulgação
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Alta Roda

Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Fernando Calmon

Colunista do UOL

Deu para notar que, de repente, não se comparam mais preços dos carros no Brasil com os de outros mercados, em especial dos EUA? Na maioria das vezes, versões diferentes em equipamentos e motorização dificultavam as comparações, fora frete e impostos de lá cobrados à parte. Esta Coluna sempre citou variações cambiais como causa de aberrações para cima e para baixo.

Só há uma certeza: automóvel no Brasil paga impostos altamente abusivos. A carga fiscal real -- diferença entre o custo do veículo e por quanto ele sai da loja após todos os impostos e frete embutidos -- é a maior do mundo com exceção da Dinamarca, mercado pequeno e diferente do resto da Europa.

Mas essa "primazia" começamos a perder para a Argentina: nosso país vizinho criou imposto extra para carros considerados "de luxo", com preço de tabela acima do equivalente a cerca de R$ 70 mil. Corolla vendido na Argentina é idêntico ao brasileiro. O preço lá começa em R$ 81 mil e vai a R$ 138 mil (no Brasil, varia de R$ 70 mil a R$ 100 mil). Poucos reverberaram essa distorção combinada de taxa de câmbio e voracidade tributária.

No dia 19 de março, o dólar (câmbio oficial) bateu R$ 3,30. Vamos tomar como exemplo o Chevrolet Cruze sedã americano, modelo igual ao produzido em São Caetano do Sul (SP). Por lá, a versão de entrada LS tem inclusive o mesmo motor, mas é pouco equipada por disputar compradores de menor poder aquisitivo. Sem frete, o modelo custava, naquela data, quase US$ 20 mil, ou R$ 66 mil. Aqui o mesmo carro, na versão LT, parte de R$ 74 mil, só que com menos equipamento o preço ficaria quase igual, apesar da abismal diferença de impostos entre os dois países (8% lá, contra 55% aqui). Já uma S10 LTZ Flex cabine dupla 4x2 saía aqui por R$ 98 mil e lá a versão equivalente custa R$ 102 mil, pois no Brasil picapes são um pouco menos tributadas que automóveis.

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Cruze nos EUA, menos equipado, custa quase o mesmo que um completo no Brasil imagem: Divulgação
Segundo a agência Fitch, a cotação do dólar deveria estar em R$ 3,75 só para compensar a diferença inflacionária da última década, sem considerar o chamado "custo Brasil". Aí, então, as comparações seriam aberrantes ao extremo. Teríamos ao mesmo tempo os veículos mais taxados entre os mais baratos do mundo.

Também se criou, antes da escalada do dólar, a fantasia chamada "lucro Brasil", que impregnou até redes sociais. Obviamente, pelo mercado de veículos ter dobrado em 10 anos, os fabricantes ganharam muito dinheiro no período 2005-2013. Lucro operacional -- diferença entre preço de custo e de venda -- ficou mesmo acima da média mundial, mas isso não explica preços altos como alguns teorizavam. Afinal, com a cotação do dólar a R$ 1,70 em 2010, a distorção comparativa era enorme e incentivou remessas de lucros para socorrer empresas matrizes na crise financeira das grandes economias.

Sem dúvida, o Brasil perdeu competitividade industrial por razões mais do que sabidas. E só a desvalorização cambial não resolverá tudo, inclusive baixa produtividade geral. Agora, chegou a era do "prejuízo Brasil". Segundo o Banco Central, em março passado, nenhum centavo foi remetido ao exterior pela cadeia de produção automobilística. E com queda de produção e ociosidade crescente, os preços subirão acima da inflação pela primeira vez nos últimos anos. Preparem-se.

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RODA VIVA

  • Este ano tem sido excepcional em lançamentos concentrados. Apenas coincidência, pois projetos sofrem atrasos em diferentes fases e são difíceis de recuperar. Informantes garantem início de produção do Golf nacional em julho próximo, em São José dos Pinhais (PR), e da picape média da Fiat em Goiana (PE) em setembro. Vendas até 60 dias depois.
  • Pouco se sabe ainda sobre o novíssimo Ford GT. O supercarro esporte terá chassi de alumínio e compósito de fibra de carbono. Interior (ainda não exibido) sem alavancas de limpador e setas. Motor V6 biturbo de 3,5 litros e mais de 600 cv. Produção de 250 unidades/ano e preço superior a US$ 300 mil. Será feito em Ontario, Canadá, pela Multimatic. Pronto, só em 2016, ao se completarem 50 anos das três primeiras posições do GT40 original na "24 Horas de Le Mans".
  • BMW 428i Grand Coupé reúne elegância ímpar de um sedã-cupê de quatro portas ao tamanho racional e desempenho alto. Tudo na medida certa e com muitos poucos a desafiá-lo no quesito preço-benefício. Janelas sem molduras metálicas conferem toque adicional de esportividade. Mas o teto baixo exige atenção a quem entra no banco traseiro.
     
  • Existe como resolver as 240 mil cotas de consórcios contempladas e não transformadas em vendas. Bastaria voltar às origens: consorciado tinha 90 dias para comprar exclusivamente um carro. Nada de carta de crédito livre para gastar como quiser. Isso mudou na época em que havia ágio para aliviar pressão de demanda.
     
  • Adiamento de decisões já não surpreende. Contran postergou por um ano as placas veiculares padronizadas do Mercosul para 1º de janeiro de 2017 e não 2016. Discute-se controle de produção e distribuição. Ou seja, o básico. Então não se deveria marcar data apertada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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