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Brasil "empurra com a barriga" decisões importantes do setor automotivo

Renato Stockler/Folhapress
Votação de lei federal de inspeção técnica veicular vem sendo adiada há anos imagem: Renato Stockler/Folhapress
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Alta Roda

Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Fernando Calmon

Colunista do UOL

Uma das características menos virtuosas que um povo deve evitar é adiar decisões. Os governos do nosso país parecem cultuar com fervor o velho ditado "empurrar com a barriga" -- ilustrado no título desta coluna --, que pode até ser moderadamente aplicado por razões momentâneas.

Quem desconhece a lei que não "pega" ou, pior, a lei sem regulamentação e, portanto, de efeito prático nulo? Sem contar a proibição de algo com ausência de penalização que se transforma em letra-morta.

Neste começo de ano, apenas no setor automobilístico, há diversas pendências que migraram de 2014, ou mesmo de mais de uma década atrás, e que ainda precisam ser debatidas, votadas e/ou colocadas em prática. É a cultura insuportável da postergação sem fim. A coluna desta semana listou dez casos do tipo. Confira: 

1º) Inspeção veicular federal: inclui segurança e emissões simultaneamente, já deveria estar implantada na maioria dos Estados há quase duas décadas. No entanto, uma regulamentação com bases sérias e não apenas pró-forma vem sendo adiada ano após ano, em jogo de empurra entre Executivo e Legislativo federais. 

Diego Padgurschi/Folhapress
Inspeção veicular na cidade de São Paulo foi suspensa pelos motivos certos, mas já devia ter sido recolocada em prática sob novas regras imagem: Diego Padgurschi/Folhapress
2º) Inspeção ambiental de São Paulo: Está temporariamente suspensa há dois anos. Apesar das promessas da prefeitura local, de que o programa seria reformulado e voltaria a operar em 2014, até agora nada saiu do papel. Existe, de fato, a necessidade de se reformular a periodicidade da inspeção e a frota inspecionável, porém o suspensão já dura mais tempo do que o desejado. 

3º) Troca do extintor BC pelo ABC: Foi anunciada há cinco anos, com previsão de entrada em vigor em 1º de janeiro de 2015. A data chegou e... o Ministério das Cidades prorrogou o prazo por mais 90 dias, alegando que os motoristas precisariam de mais tempo para encontrar o extintor do tipo correto no mercado. Para que serviram os 1.825 dias anteriores, então?

4º) Registro de recalls no licenciamento: Decidiu-se lançar no registro de licenciamento anual, a partir de 2014, os veículos que não atendessem aos chamados para troca de peças defeituosas ligadas à segurança. Muitas vezes o motorista esquece de atender ao chamado, adia ou simplesmente não foi devidamente informado a respeito. Alegação para não implantar: informações pouco robustas.
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Programa de substituição de caminhões com mais de 30 anos de uso está em "fase de estudos" desde 2013; faltam recursos para colocar ideia em prática imagem: Apu Gomes/Folhapress

5º) Renovação da frota de caminhões: Entidades e sindicatos do setor automobilístico propuseram ao governo federal, em novembro de 2013, um programa de substituição de caminhões com mais de 30 anos de uso. Por "falta de recursos?, a ideia segue em "fase de estudos" até hoje, e espera-se que avance ao estágio de "programa-piloto em 2015.

6º) Rastreadores obrigatórios: A instalação compulsória (contratação do serviço, opcional) de rastreadores em todos os veículos novos no Brasil -- o chamado "RG do carro", já explicado por esta coluna -- foi adiada por quatro vezes. É uma exigência descabida e sem eficiência para inibir furtos e roubos, e acredita-se que será revogada depois de só causar prejuízos.

7º) Novos itens de segurança obrigatórios: Passou 2014 e nem o Contran (Conselho Nacional de Trânsito), nem os fabricantes avançaram na proposta de tornar obrigatórios itens de segurança de baixo custo, como fixação Isofix para bancos infantis, cintos retráteis no banco traseiro, monitoramento de pressão de pneus (via ABS) e controle de estabilidade (ESC), em prazo de até cinco anos. 

8º) Maior eficiência no consumo de etanol: O Governo Federal induziu, ano passado, a melhoria no consumo relativo de etanol (ponto de equilíbrio de 70% para 75% frente à gasolina) em motores flex. Sem estímulos anunciados até agora, ninguém se mexeu. 
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Sem plano claro de exportação, Brasil produziu menos carros que o México em 2014 imagem: Divulgação
9º) Exportar-Auto: Também de novembro de 2013 é a proposta de aumento de exportações de automóveis. O Brasil já perdeu para o México, em 2014, a sétima posição na classificação mundial de maiores produtores do mundo, justamente por exportar menos. Enquanto isso, o programa Exportar-Auto ainda se arrasta na esfera federal.

10º) Revisão nos dados da frota nacional: O Contran precisa, por meios estatísticos, revisar dados inflados em cerca de 30% da frota nacional de veículos. Parece que há a intenção, mas nunca sai do papel. Até quando?

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RODA VIVA
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+Briga pela posição de carro mais vendido em 2014, entre Fiat e Volkswagen (Palio/Palio Fire vs. Gol), em que a primeira levou a melhor, estendeu-se ao ranking dos mais econômicos neste início de ano. Segundo o Inmetro, o up! venceu entre carros com ar-condicionado e direção assistida, seguido pelo Uno Evolution e Ka. Entre os 10 primeiros, dois modelos da marca italiana e dois da alemã.

+Noventa anos da GM no Brasil foram marcados com inauguração, nesta semana, do novo centro logístico de abastecimento dentro da fábrica de São Caetano do Sul (SP). Área que estoca 4.000 itens de peças, além de gerenciamento de conceito avançado para a indústria, surgiu da “desconstrução assistida” de velhos galpões existentes há décadas.

+Peugeot RCZ é daqueles carros esportivos derivados de arquitetura de alta produção (no caso, o 308) que impressionam onde chegam. Cupê de 2+2 lugares tão ousado como Audi TT, tem direção e suspensões de calibragem mais firme, que estimulam uma tocada rápida mas responsável. Inclui aerofólio autorregulável de acordo com a velocidade. Para seus 165 cv, tem preço razoável: R$155.090.

+Saiu o ranking dos 10 modelos mais vendidos na Europa em 2014, segundo a Focus2Move. Mais uma vez o Volkswagen Golf venceu, por margem de 66% sobre o segundo colocado, o Polo (da mesma marca). Depois vieram Renault Clio, Ford Fiesta, Opel Corsa, Ford Focus, Nissan Qashqai, Skoda Octavia, Peugeot 208 e Opel Astra. Pela primeira vez a lista apresentou um carro da Skoda e nenhum da Fiat.

+Correção: na classificação dos veículos de maior venda no Brasil em 2014, tabulada pelo critério desta coluna, o Jeep Grand Cherokee foi reclassificado como SUV grande e reposicionado em terceiro lugar no segmento, atrás de Pajero Full/Dakar e Edge.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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