Acomodação e freio ao financiamento explicam queda nas vendas de carros

Fernando Calmon

Fernando Calmon

Colunista do UOL
  • Adriana Franciosi/Agência RBS

    Estoque em loja de carros da Fiat, marca com maior participação de mercado no Brasil

    Estoque em loja de carros da Fiat, marca com maior participação de mercado no Brasil

Resultados ruins em vendas internas, produção e exportação (unidades) ao final deste primeiro semestre refletem economia fraca, inflação alta e insegurança sobre o futuro. Em relação ao primeiro semestre de 2013, os recuos foram de 7,6%, 16,8% e 35,4%, respectivamente. Tombo foi maior do que se previa no final do ano passado, quando especialistas acreditavam que a economia brasileira cresceria em 2014 um pouco além que os 2,5% de 2013. Agora falam em apenas 1% a mais no PIB.

A própria Anfavea refez suas previsões que se mostraram otimistas demais em dezembro último. Graças à manutenção do IPI parcialmente reduzido, anunciada em 1º de julho, os números no fechamento do ano seriam um pouco menos negativos: 5,4%, 10% e 29%, respectivamente.

Ou seja, crescimento no segundo semestre (14,3%, 13,2% e 36,9%, na mesma ordem) compensaria em parte o raquítico início de ano.

Engana-se quem pensa que a volta do IPI cheio resolveria graves problemas fiscais do governo. Cada 1 ponto percentual de aumento na alíquota, reflete-se em acréscimo de preço de 1,1%. Cada 1% no preço resulta em vendas 1,6% menores. Multiplicados os fatores, 1% a mais de imposto, na prática, significa 2,5% de queda no mercado. Em números redondos, 4 p.p. do IPI (de 3% atuais  para os 7% originais) repassados aos preços, significariam um mergulho de 10% nas vendas e arrecadação final de impostos menor.

O cenário piorou por uma conjugação de fatores. Produção foi duplamente prejudicada: mercado interno e situação na Argentina que recebe quase 80% dos veículos exportados daqui. Muito se comenta que os feriados da Copa do Mundo prejudicaram as vendas. Porém, se o mercado estivesse aquecido, os compradores apenas teriam adiado sua ida às lojas. Carros não faltam, pois há 45 dias de estoque (30% acima do normal), e as concessionárias conseguem emplacar mais de 15.000 veículos/dia útil. No primeiro semestre foram apenas 11.500, em média.

O QUE ROLOU?
Resta saber as causas da apatia e há várias explicações. A primeira é certa acomodação, depois de nove anos de crescimento firme. Inegável que as pessoas também anteciparam compras e a procura sofre mesmo um abalo. O mercado, no entanto, continua com grande potencial, já que mal chegamos ao índice de 5 habitantes/veículo, pouco abaixo da média mundial, mas distante de México e Argentina, por exemplo.

Financiamento, responsável por dois terços das vendas, ficou mais restrito. Embora a inadimplência seja um complicador impactante sobre os juros, outro problema é menos comentado. Planos artificiais de redução de taxa têm eficácia limitada. Se mudassem as regras de retomada dos bens, hoje lenientes para quem deixa de honrar as prestações, certamente aumentaria a oferta de crédito. Em outros países até o pagador com restrições consegue se financiar, pois afinal o veículo pode ser recuperado em pouco tempo. Simultaneamente, o cliente pontual paga menos juros e ganha prazo. O fim do paternalismo criaria um mercado de crédito bem maior e saudável.

De qualquer forma, este semestre tem potencial de ser melhor que o primeiro também porque haverá pelo menos 14 lançamentos, é ano do Salão do Automóvel e a indústria ainda demonstra fôlego para promoções.

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RODA VIVA
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Aumentar etanol na gasolina de 25% para 27,5%, em estudo pelo governo, traria mais desvantagens que benefícios. Gasolina padrão tem 22% de etanol e assim se homologam motores para consumo e emissões. Mais interessante a decisão recente de imposto menor para motor flex com relação de consumo entre etanol e gasolina superior a 75%, sem prejuízo da eficiência energética da gasolina. Ainda não se anunciou a nova alíquota.

Anfavea mudará suas estatísticas, inclusive série histórica de 58 anos, para enquadrar SUV como automóvel de passageiros e não mais comercial leve, conforme a legislação tributária. Comerciais leves, além de pequenos caminhões e furgões, serão apenas veículos com caçamba, a exemplo de picapes de qualquer porte com cabine simples, estendida ou dupla.

Grupo Caoa-Hyundai reforça sua estratégia de marketing para inserir com maior ênfase no mercado o SUV de sete lugares Grand Santa Fe. Motor é o mesmo V-6/3,3L/270 cv (gasolina) do Santa Fe, de 5 e 7 lugares. Acabamento e equipamentos semelhantes, porém com espaço interno maior, suspensões um pouco mais macias e tração 4x4. Preço: R$ 173.990. Santa Fe, 7 lugares, custa R$ 12.000 menos. 

Mitsubishi Lancer sofreu um pequeno atraso até a entrada em produção nas instalações do Grupo Souza Ramos, em Catalão (GO). Ficou para outubro próximo e início de vendas no final de novembro. É o primeiro automóvel da marca japonesa de produção nacional. Além desse médio-compacto, é possível a produção também de um compacto em 2016.

Correção, na coluna da semana passada. O número total de modelos compactos e subcompactos hoje no mercado brasileiro é de 32, quatro a mais que os 28 informados.

Fernando Calmon

Fernando Calmon, engenheiro, é jornalista especializado no setor automobilístico desde 1967, quando produziu e apresentou o programa 'Grand Prix' na TV Tupi, no ar até 1980. Dirigiu a revista AutoEsporte por 12 anos e foi editor de automóveis das revistas O Cruzeiro e Manchete. Entre 1985 e 1994, produziu e apresentou o programa 'Primeira Fila' em cinco redes de TV. A coluna Alta Roda, criada em 1999, é publicada semanalmente -- na internet, é exclusiva de UOL Carros. Calmon também atua como consultor em assuntos técnicos e de mercado na área automobilística, e como correspondente para o Mercosul do site inglês just-auto. Email: fernando@calmon.jor.br

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