Mais realista, setor automotivo percebe que comprador é quem manda

Fernando Calmon

Fernando Calmon

Colunista do UOL

Está difícil ter uma sinalização clara sobre o mercado brasileiro neste final de ano e no próximo. O que se sabe é que o otimismo do começo de 2013 foi se diluindo ao longo do tempo. Analistas do setor automotivo se dividem entre os que preveem vendas um pouco menores em relação a 2012 e um pouco maiores, na soma de automóveis e veículos comerciais leves e pesados.

  • Niels Andreas/Folhapress

    Altos e baixos são do jogo e domínio do consumidor deveria ser regra, não exceção

Existe algum simbolismo em torno de 2013. Afinal, seria o décimo ano seguido de crescimento do mercado interno, em parte alavancado por períodos de diminuição provisória de IPI que levaram a quebras seguidas de recordes.

No recente seminário da Autodata, "Perspectivas 2014", em São Paulo (SP), a média de opiniões indicou sinais de desaceleração, mas não de queda de mercado. Por outro lado, a produção -- importante por sustentar os empregos da cadeia de valor -- deve continuar em ascensão em função de diminuição de importações e melhora (ainda que modesta) das exportações.

Alguns fabricantes foram menos otimistas que outros no seminário. Executivos apresentaram visões diferentes em temas espinhosos como futura capacidade ociosa, promoções e descontos agressivos. Mas houve também quem considerasse que tudo isso é do jogo: produção se administra e promoções vieram para ficar. Consumidor mandar no mercado dever ser regra, não exceção.

CRÉDITO É DEMANDA, SEGURANÇA É CUSTO
Um dos temas debatidos, de interesse direto dos consumidores, foi a mudança em implantação para viabilizar a volta do leasing, tipo de financiamento um pouco mais barato e flexível. Ainda há insegurança jurídica para que um carro seja retomado de inadimplentes; ou para lidar com "espertos" que deixam de pagar impostos e multas de trânsito por o veículo não permanecer em seu nome. Mas poderá se somar a outros canais que ajudam na oferta de crédito -- sujeita a altos e baixos por seletividade, exigência de valor de entrada maior ou de taxas de juros.

Há expectativa ainda da manutenção das atuais alíquotas menores do IPI, pelo menos no primeiro trimestre de 2014. Isso é dado como certo, o que diminuiria o ímpeto de compra neste final de ano para escapar de preços maiores. No entanto, a tendência é de que carros de entrada fiquem mais caros -- de R$ 400 a R$ 800, estima-se -- quando todos os veículos leves vierem equipados com airbags frontais e freios ABS.

Até março de 2014 será possível adquirir modelos fabricados sem esses equipamentos de segurança. Depois, sua venda ficará proibida.

Os carros mais vendidos de setembro
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COMO FICA O IPI
Então, não se descarta que a carga fiscal menor prossiga até meados do ano. Faltam, em teoria, duas "rodadas" de aumento de IPI. Nos bastidores, alguns apostam que a última etapa seria cancelada, isto é, alívio definitivo de parte do imposto.

Na verdade, os preços reais mantêm trajetória de queda, especialmente nos últimos cinco anos por qualquer índice de correção. Sinais de aumento de concorrência seguem evidentes, embora não se vislumbre guerra comercial a curto prazo. O governo abriria mão de quase migalha, em termos de IPI, como "prêmio" por preços bem comportados. E faturaria, politicamente, ao amainar a carga tributária efetiva.

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RODA VIVA
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+ Estratégia de revelar em etapas um carro novo, iniciada pelo EcoSport, será repetida pela Ford. Novos subcompactos, hatch e sedã, substituirão de uma só vez o Ka atual e a versão anterior do Fiesta (Rocam), no segundo trimestre de 2014. Bill Ford, presidente do conselho da companhia, estará em Camaçari, dia 11 próximo, para a prévia do Ka hatch (sedã fica para depois).

+ Toyota confia que o novo Corolla, em meados do próximo ano, inovará o suficiente para recuperar a liderança entre sedãs médio. Não será inspirado no modelo para o mercado americano, considerado disruptivo para seus padrões. Ainda assim terá, pela primeira vez, derivação para encarar o rival Honda Civic Si, de volta em 2014.

+ Fusion híbrido mostrou evolução se comparado ao anterior, além do preço menor, mais interessante para o porte do carro em relação ao Toyota Prius. Mesmo com bateria mais potente, não é fácil se manter no modo zero emissão. Exige condições muito particulares para rodar a 100 km/h só com o motor elétrico. Economia de combustível aparece, porém leva cinco anos para amortizar a diferença de preço.

+ Manutenção grátis -- óleo, filtros e inspeções rápidas -- por dois anos ou cerca de 40.000 km (o que ocorrer primeiro) está em oferta pelas quatro marcas da GM, nos Estados Unidos. Estratégia para aumentar retenção de clientes. Em geral, só marcas premium, como a BMW, oferecem. Aqui, Chevrolet anunciou plano de financiamento que inclui despesas com as revisões.

+ Maior rede de concessionárias do Brasil especializada em automóveis e motos premium (nove marcas, no total), Eurobike pretende voos mais altos. Estuda mercados espanhol e português, com boas oportunidades, depois de anos de crise. Passou de faturamento de R$ 25 milhões para R$ 1 bilhão/ano em uma década.

Fernando Calmon

Fernando Calmon, engenheiro, é jornalista especializado no setor automobilístico desde 1967, quando produziu e apresentou o programa 'Grand Prix' na TV Tupi, no ar até 1980. Dirigiu a revista AutoEsporte por 12 anos e foi editor de automóveis das revistas O Cruzeiro e Manchete. Entre 1985 e 1994, produziu e apresentou o programa 'Primeira Fila' em cinco redes de TV. A coluna Alta Roda, criada em 1999, é publicada semanalmente -- na internet, é exclusiva de UOL Carros. Calmon também atua como consultor em assuntos técnicos e de mercado na área automobilística, e como correspondente para o Mercosul do site inglês just-auto. Email: fernando@calmon.jor.br

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